Democracia made in USA

José Casanova
Acaba de ser formado o primeiro governo do Iraque pós-Saddam: é composto por 25 ministros, todos iraquianos, e não tem primeiro ministro. Nem precisa, tanto quanto nos é dito. Aliás, bem vistas as coisas, nem o governo era preciso: não fora a necessidade imperiosa de o Império exibir o seu acrisolado apego à democracia, à liberdade e aos direitos humanos, e o Iraque poderia continuar como está – que é, de resto, como vai ficar, ou seja, sob a pata bruta do Império.
A criação deste governo é uma farsa, um atentado à inteligência, um insulto à democracia. Antes como depois da formação do governo, quem manda é o Império: Paul Bremer, o homem do Império, é quem, na realidade, desempenha as funções de primeiro ministro e de governo, visto que, em matéria de decisões governamentais, lhe cabe sempre a ele «a última palavra em todas as áreas». No entanto, sublinhe-se a suprema hipocrisia: há neste governo fantoche um Ministério dos Direitos Humanos! – coisa que há-de fazer as delícias democráticas dos propagandistas do Império na lusa comunicação social. Entretanto e para já, os 25 ministros desunham-se em exibições de fidelidade aos interesses dos seus compatriotas, assim como quem diz: «Quem nos escolheu foram os ocupantes, quem nos dá ordens e quem decide tudo são os ocupantes, mas vocês podem contar connosco»...
Paralelamente a esta farsa, e porque, como se sabe, Bush nem dorme com tantas preocupações democráticas, o país ocupante prossegue os esforços visando a elaboração de uma Constituição para o Iraque. O texto constitucional está a ser, ou vai ser, elaborado por uma equipa de especialistas internacionais, gente formada em democracia nas escolas do Império e que a troco de meia dúzia (ou talvez uma dúzia) de milhões de patacos fazem o enorme sacrifício de, em nome da democracia, utilizarem os seus vastos e profundos conhecimentos na elaboração da lei fundamental de um país que, não sendo o deles, está, no entanto, ferreamente ocupado por amigos do peito. Assim se constrói a democracia made in USA.
Recorde-se: no dia em que as tropas do Império ocuparam Bagdad, um iraquiano produziu o seguinte comentário: «Agora temos liberdade, podemos dizer o que quisermos» - e logo acrescentou: «Mas eles farão o que quiserem». Quase acertou: os iraquianos não podem dizer tudo o que quiserem mas os ocupantes fazem, de facto, tudo o que querem.


Mais artigos de: Opinião

Jogar com tripla

No velhinho e quase esquecido Totobola há a hipótese de, num ou mais jogos do boletim, o apostador jogar com tripla, isto é, eliminar qualquer risco de perder fazendo com que todos os resultados possíveis lhe sejam favoráveis. Na prática o mesmo acontece com o Grupo Mello no negócio da gestão do Hospital Amadora-Sintra. Senão vejamos.

O verdete

Não sei se já repararam - reparo eu todos os dias - que as boas notícias raramente são notícia nos jornais que nos é dado ler, neste tipo de sociedade comunicante. Mal os incêndios se haviam extinguido, logo ressuscitou o caso da pedofilia e aqui também não houve boas notícias, isto é, a notícia de que o caso ia ser...

A rentrée do lado positivo

Ena, pá! Ganda bronze! Isso é que foram uns valentes dias de papo pró ar! Hã! É comigo? Olha que eu não tive férias dessas. Pá! Deixa lá de ser pessimista! Vê o lado positivo! Mas este tipo está avariado. Ainda me vai dizer que poupei nos bilhetes de avião!... Já viste o que poupaste em quartos de hotel? Isso é positivo....

A ONU

Os princípios fundadores da ONU, constantes da sua Carta, são nobres e correspondem a aspirações profundas da Humanidade. No Artigo 1 proclama-se como finalidades da ONU «manter a paz e a segurança internacionais» e «desenvolver relações amistosas entre as nações baseadas no respeito do princípio da igualdade de direitos...

As lições do PS

Terminada que está a Universidade de Verão que o PS acaba de promover, não podem deixar de ser anotadas, com risco de omissão de outras não menos importantes matérias que a vastidão dos objectivos de formação incorporou, duas significativas reflexões que marcaram presença lectiva.A primeira, fazendo fé em noticias que de...