A rentrée do lado positivo

Domingos Mealha
Ena, pá! Ganda bronze! Isso é que foram uns valentes dias de papo pró ar! Hã! É comigo? Olha que eu não tive férias dessas. Pá! Deixa lá de ser pessimista! Vê o lado positivo! Mas este tipo está avariado. Ainda me vai dizer que poupei nos bilhetes de avião!... Já viste o que poupaste em quartos de hotel? Isso é positivo. Pró ano, ainda passas melhor a canícula! Olha, isto pega-se! Também este diz que para o ano é que vai ser. Tão, pá? Que cara é essa? Haja confiança, pá!
Até 2010! Tende confiança, que isto faz-se, mas é necessária mais uma legislatura. Uma, pelo menos... Temos todo o País para modernizar, com optimismo. Baixamos, já no ano que vem, o imposto sobre os lucros das empresas. Depois do IRC, também diminuirá o IRS, ainda antes das eleições. Talvez pouco antes das eleições... Vamos pôr computadores nas escolas, vamos aumentar as pensões, vamos modernizar o Estado, vamos...
Salada de factos e ficção, mistura de real e virtual, chegou outra vez a rentrée. Com espírito positivo, pode-se dizer que é todos os setembros a mesma coisa, apesar de haver anos piores. Este não é dos melhores, certamente.
O verão foi o pior, desde há muitos anos, para a floresta e para os que nela e dela vivem. Falta fazer o debate sério e profundo sobre causas e responsabilidades políticas, falta retirar as consequências e garantir que se efectuam as alterações necessárias e até consensuais. Não se pode esquecer que, já no ano passado, este Governo anunciou, positivo, que estaria pronto um plano de prevenção em Setembro. Do ano passado...
A ofensiva contra os trabalhadores é das mais violentas de que há memória. O Código do Trabalho é o expoente de todas as cedências ao grande patronato, que positivamente vê relegados, para depois do aumento da exploração dos trabalhadores, outros objectivos políticos, como o combate à fraude e a justa cobrança de impostos e de contribuições para a Segurança Social, ou como a fiscalização e a punição das violações diárias da lei e da contratação colectiva em muitas e grandes empresas. O desemprego, a crescer contra todas as promessas e previsões positivas, é uma ameaça real que constrange a resistência de quem vive do seu trabalho. A diminuição real do valor dos salários só é travada pela luta colectiva dos trabalhadores. Contra qualquer positiva leviandade esgrimem o défice e a inflação.
A desarticulação e o esvaziamento da Administração Pública atingem gravemente alicerces do regime democrático construído após a revolução de Abril. Viu-se dramaticamente o efeito dos cortes cegos que minaram a prevenção dos incêndios florestais; vê-se o primado dos lucros privados a impor-se na Saúde, com graves prejuízos para o Estado e para os utentes; a Justiça tarda e os prevaricadores, mais poderoso que as vítimas, vão passando impunes. São gritantes os efeitos da falta de pessoal também nos consulados portugueses. Em praticamente todos os serviços públicos, como não sucedera antes, foram desferidos golpes com um escandalosamente claro fito: destruir para privatizar. Positivo? Sim, nas contas dos grandes grupos beneficiados com o bodo.
Tão, pá? Que cara é essa? Pró ano é que vai ser! Férias em grande. E melhor rentrée.
Espírito positivo? Sim. Confiança? Claro: no trabalho, nos heróis do dia-a-dia, que resistem e que constroem, com colectiva determinação que cresce a par das crescentes dificuldades. A rentrée do trabalho acontece todos os dias. Mesmo nos dias de férias.
Ena, pá! Ganda bronze!
Este bronze tem mais brilho, quando se ganha no sol da Atalaia. É uma festa!


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