Conferência da ONU em Havana

As causas da pobreza

As críticas ao neoliberalismo e à globalização capitalista tem marcado os trabalhos da conferência da ONU sobre a seca e a desertificação, que decorre até sexta-feira na capital cubana.

Apesar da sua pobreza África é o continente que mais capitais exporta

Na sessão de terça-feira, em que participaram cerca de uma dezena de governantes, na sua maioria de estados africanos, e 160 delegações vindas de todo o mundo, voltaram a ouvir-se acusações aos países desenvolvidos, cujos altos representantes primaram pela ausência.
Constatando os efeitos negativos das políticas dos países ricos no chamado terceiro mundo, os oradores convergiram na necessidade de encontrar soluções efectivas para enfrentar o problema da seca que afecta a quarta parte do planeta.
Entre os intervenientes destacaram-se Sam Nujoma, presidente da Namíbia; Blaise Campaoré, presidente do Burkina-Faso; Pakalitha Bethuel, primeiro-ministro do Lesoto; Percival Patterson, primeiro-ministro da Jamaica, bem como Hugo Chaves, presidente da Venezuela e o líder cubano, Fidel Castro.
Castro arremeteu contra o neoliberalismo, a globalização e a política dos organismos financeiros internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou a Organização Mundial do Comércio. Segundo sublinhou, a preservação do meio ambiente é «incompatível com o sistema económico imposto ao mundo, a desapiedada globalização neoliberal».
Chavez, que já na véspera tinha criticado as ausências dos governantes da União Europeia e dos Estados Unidos, acusando-os de apenas estarem interessados em discutir o comércio livre ou os preços do petróleo, apontou-lhes a falta de vontade para resolver a pobreza e lamentou os escassos avanços que se produziram nas últimas décadas para atacar o problema.
Nujoma veio depois apelar ao reforço da cooperação Sul-Sul e lembrar que África «é um continente rico que vive em plena pobreza». «A cooperação Sul-Sul vai permitir reforçar a posição do sul e só depois poderemos promover a cooperação Sul-Norte, assinalou.
O primeiro-ministro do Lesoto considerou que «o maior desafio que temos pela frente é admitir que o problema ecológico não tem fronteiras e que para aplicar os programas de protecção do meio ambiente temos de ver o planeta como uma entidade única».
Mugabe, o presidente do Zimbabwe, lembrou «as promessas não cumpridas» dos países industrializados para o combate à pobreza e à degradação dos solos, enquanto o primeiro-ministro da Jamaica exortou os presentes a aceitar a proposta do Fundo do Meio Ambiente Mundial de se converter num mecanismo financeiro da Convenção das Nações Unidas para canalizar recursos para os países afectados pela seca.

Exportador de capitais

Na segunda-feira, durante uma mesa redonda de chefes de Estado e de Governo, promovida no âmbito da Conferência, o representante do secretário-geral da ONU, Ibrahim Gambari, usou da palavra para assinalar que sendo África a região mais pobre do mundo, paradoxalmente, é aquela que exporta maior quantidade de capitais, ao mesmo tempo que é a que recebe menor quantidade de recursos dos centros financeiros mundiais.
Também Amadou Touré, presidente do Mali, chamou a atenção para os conflitos sociais criados em África pelas migrações das populações rurais para as cidades e denunciou o facto de vários países da região exportadores de algodão continuarem sem dispor de meios para a produção de uma camisa ou um pulóver.
As situações de extrema pobreza vividas em África obrigam que muitos países sejam obrigados a sobre-explorar os únicos recursos de que dispõem, liquidando-os e tornando-se ainda mais pobres. «Esta é a única alternativa que têm para poder comerciar e sobreviver, ainda que em condições cada vez mais deploráveis», afirmou o primeiro-ministro do reino do Lesoto, Pakatitha Bethuel.


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