A culpa
As imagens dantescas do país a arder só têm paralelo, no horror, com as imagens da devastação onde o pesadelo acabou, deixando atrás de si as cinzas do que ainda há pouco era a vida de povoações inteiras.
Seres humanos e animais, habitações e fábricas, campos de cultivo e estábulos, florestas e matas tudo foi devorado pelas chamas ateadas por mãos criminosas e pela não menos criminosa incúria de quem, tendo responsabilidade na condução dos destinos do País, nada fez para prevenir a catástrofe.
Não cabem nestas contas os sonhos desfeitos nem a dor e o desespero de quem perdeu tudo o que tinha. Tão pouco cabem aí as angústias de quantos se vêem forçados a recomeçar do zero sem ter por horizonte nada mais do que uma mão cheia de promessas e vazia de conteúdos. São coisas que não se medem nem têm preço e para as quais as palavras, por eloquentes que sejam, soam sempre a pouco.
O que cabe nesta contabilidade de perdas e danos, isso sim, é o apuramento de culpas e a responsabilização dos culpados, porque apesar de Portugal se parecer cada vez mais com uma qualquer república das bananas não é possível que o território arda de Norte a Sul sem que o Terreiro do Paço saia chamuscado.
Engasgados com o fumo andam já alguns ministros, cujos discursos delirantes saltam das granadas pretensamente escondidas por ex-combatentes para solenes promessas de um livro branco sobre os incêndios, e chegam mesmo ao ponto de ameaçar com a expropriação - heresia das heresias! - os proprietários que não cuidem dos seus terrenos. Os ministros prometem subsídios e apoios extraordinários, apelam à esmola da NATO e à caridade da Casa Branca, conduzem comissários europeus em visitas guiadas ao desastre para convencer Bruxelas a abrir os cordões à bolsa, mas nada dizem sobre a necessidade de inverter a política de terra queimada que vêm cometendo.
A ministra das Finanças não proferiu uma palavra quanto à eventual revisão do seu plano de estrangulamento da economia nacional. O ministro da Defesa, desaparecido em parte incerta, não se propôs trocar os submarinos ou a missão no Iraque pelos aviões de combate a incêndios que Portugal não tem. O ministro da Administração Interna não se pronuncia sobre o quadro de pessoal da polícia de investigação, com 50 por cento dos lugares por preencher. O ministro do Ambiente é um vazio só comparável com a política do seu Ministério. O ministro da Agricultura lida com as sequelas dos fogos com a mesma ligeireza com que se descartou dos nitrofuranos de triste memória. E Durão Barroso, incapaz de responder às perguntas mais elementares dos jornalistas sobre a descoordenação dos meios para o combate aos incêndios, remeteu-se ao papel de espectador da tragédia que devasta o país.
Quanto aos partidos do governo, no afã de sacudir de não chamuscar as barbas, fazem de conta que nada tiveram a ver com a governação nas últimas décadas nem com a alternância dos mesmos com as mesmas políticas de alternância.
Se Portugal tivesse governantes com um pingo de decoro, o mínimo que poderia acontecer face a este Verão de pesadelo seria a demissão imediata do executivo. Não é o caso. Por cá a culpa vai continuar a morrer solteira nos assuntos de Estado, muito bem embrulhadinha no pacote de promessas que se adivinha para a próxima campanha eleitoral.
Seres humanos e animais, habitações e fábricas, campos de cultivo e estábulos, florestas e matas tudo foi devorado pelas chamas ateadas por mãos criminosas e pela não menos criminosa incúria de quem, tendo responsabilidade na condução dos destinos do País, nada fez para prevenir a catástrofe.
Não cabem nestas contas os sonhos desfeitos nem a dor e o desespero de quem perdeu tudo o que tinha. Tão pouco cabem aí as angústias de quantos se vêem forçados a recomeçar do zero sem ter por horizonte nada mais do que uma mão cheia de promessas e vazia de conteúdos. São coisas que não se medem nem têm preço e para as quais as palavras, por eloquentes que sejam, soam sempre a pouco.
O que cabe nesta contabilidade de perdas e danos, isso sim, é o apuramento de culpas e a responsabilização dos culpados, porque apesar de Portugal se parecer cada vez mais com uma qualquer república das bananas não é possível que o território arda de Norte a Sul sem que o Terreiro do Paço saia chamuscado.
Engasgados com o fumo andam já alguns ministros, cujos discursos delirantes saltam das granadas pretensamente escondidas por ex-combatentes para solenes promessas de um livro branco sobre os incêndios, e chegam mesmo ao ponto de ameaçar com a expropriação - heresia das heresias! - os proprietários que não cuidem dos seus terrenos. Os ministros prometem subsídios e apoios extraordinários, apelam à esmola da NATO e à caridade da Casa Branca, conduzem comissários europeus em visitas guiadas ao desastre para convencer Bruxelas a abrir os cordões à bolsa, mas nada dizem sobre a necessidade de inverter a política de terra queimada que vêm cometendo.
A ministra das Finanças não proferiu uma palavra quanto à eventual revisão do seu plano de estrangulamento da economia nacional. O ministro da Defesa, desaparecido em parte incerta, não se propôs trocar os submarinos ou a missão no Iraque pelos aviões de combate a incêndios que Portugal não tem. O ministro da Administração Interna não se pronuncia sobre o quadro de pessoal da polícia de investigação, com 50 por cento dos lugares por preencher. O ministro do Ambiente é um vazio só comparável com a política do seu Ministério. O ministro da Agricultura lida com as sequelas dos fogos com a mesma ligeireza com que se descartou dos nitrofuranos de triste memória. E Durão Barroso, incapaz de responder às perguntas mais elementares dos jornalistas sobre a descoordenação dos meios para o combate aos incêndios, remeteu-se ao papel de espectador da tragédia que devasta o país.
Quanto aos partidos do governo, no afã de sacudir de não chamuscar as barbas, fazem de conta que nada tiveram a ver com a governação nas últimas décadas nem com a alternância dos mesmos com as mesmas políticas de alternância.
Se Portugal tivesse governantes com um pingo de decoro, o mínimo que poderia acontecer face a este Verão de pesadelo seria a demissão imediata do executivo. Não é o caso. Por cá a culpa vai continuar a morrer solteira nos assuntos de Estado, muito bem embrulhadinha no pacote de promessas que se adivinha para a próxima campanha eleitoral.