Regresso a Génova

Ângelo Alves

Apoiemo-nos no que de melhor se exprimiu em Génova em 2001.

Alguns já não se recordam, outros fazem por esquecer, outros ainda, tentam manipular o seu significado. Julho de 2001, Génova. Manifestações contra o G8.
A cidade encontrava-se sitiada pelas várias forças de segurança que tentavam à força de arame farpado, zonas «vermelhas» e «amarelas», muros de betão, contentores marítimos, caças, helicópteros, cargas policiais e gás garantir o «sossego» possível aos participantes na reunião do G8. As manifestações e confrontos tinham começado cedo, o fumo e o cheiro a gás caracterizavam a atmosfera da cidade italiana à chegada do grupo de membros do PCP. A partir daí tudo aconteceu num ápice. O testemunho dos confrontos à chegada a Génova; a notícia do assassinato de Carlo Giuliani; as violentas cargas sobre a grande manifestação de dia 18; os momentos simbolicamente bonitos como o «regar» dos manifestantes pelos habitantes de Génova numa tarde de muito calor ou a recepção calorosa dos camaradas italianos, tudo está gravado na memória dos que nos deslocámos a Génova nesse ano. Em Génova nesses dias de Julho de 2001 viveu-se uma atmosfera especial. As contradições que hoje perpassam o chamado «movimento anti-globalização»« estavam lá todas, mas nessa altura sobressaía muito a vontade de estar presente, de manifestar, de mostrar que éramos muitos, diferentes, mas unidos ali, dispostos a «derrotar» o G8 e o sistema que simboliza.

Passados exactamente dois anos, Génova acolherá uma reunião preparatória do Fórum Social Europeu (FSE). Depois da realização do Fórum Social Europeu em Florença, avança-se agora na preparação de um outro FSE. Desta feita serão Paris e Saint Denis em França a acolher o evento entre os dias 12 e 16 de Novembro.

Muitos fazem uma ligação directa entre as grandes manifestações anti-globalização e o chamado «movimento dos Fóruns». Há sem dúvida relação. Mas há também importantes diferenças. Os Fóruns que se têm realizado, nomeadamente em Portugal, têm evidenciado duas realidades muito claras:
Uma intensa luta política e ideológica sobre o modelo e metodologias a adoptar e sobre questões ideológicas de fundo tais como os caminhos da luta por «um outro mundo», o conceito de «revolução», a questão do poder político, o papel do partido revolucionário e do sindicalismo de classe na transformação social; Uma tentativa de centralização e controle por um pequeno punhado de organizações e «personalidades» que tentam criar e dirigir de cima para baixo uma directoria de «novos movimentos sociais»« e a crescente intervenção e influência da social democracia neste processo.

Por seu lado, as manifestações anti-globalização, na sua diversidade, têm demonstrado também duas realidades bem distintas das anteriores:
O importantíssimo papel dos partidos comunistas e progressistas e dos movimentos de massas organizados (sobretudo do movimento sindical) na mobilização e preparação das acções, e o natural reconhecimento por todos do seu papel; um discurso mais claramente anti-capitalista acompanhado da manutenção do princípio inicial da diversidade e autonomia de lutas e organizações e da unidade na acção a partir de realidades concretas.

Estas questões e contradições têm estado presentes em todas as discussões de preparação dos vários fóruns. O facto de esta próxima reunião se realizar nesta data, e em Génova, tem uma carga simbólica que não deve ser aproveitada para cobrir tentativas de esvaziamento do carácter anti-capitalista do movimento anti-globalização. Pela nossa parte levaremos a Itália uma mensagem: Apoiemo-nos no que de melhor se exprimiu em Génova 2001 para fazer com que Paris 2003 possa ser realmente útil à luta por uma outra Europa, de povos e países soberanos, de paz, progresso e cooperação.


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