Tudo como antes
A alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque fez correr rios de tinta em todo o mundo. Os serventuários dos EUA, comentadores encartados e democratas com visão do mundo em sentido único desunharam-se a convencer as massas de que a mistura explosiva representada por um ditador com armas daquele tipo constituía não só uma ameaça para o respectivo povo como um perigo para a sobrevivência da humanidade.
Subjacente ao discurso da necessidade de desarmar Saddam Hussein está a ideia peregrina de que as armas são más quando nas mãos erradas, mas que as mesmas armas são boas quando nas mãos certas. O facto de que tais armas, seja quais forem as mãos que as detenham, servem sempre para o mesmo fim, isto é, matar, tornou-se aparentemente irrelevante. O que tem em si uma outra ideia, não menos singular: a de que a destruição maciça pode ser uma coisa boa se for usada por «uma boa causa».
Questionar as intenções dos EUA não é, naturalmente, coisa que se faça, adquirida que está a sua condição de país campeão da liberdade e da democracia. Assim sendo, os seguidores dos states defendem as teses de Washington, com confiança cega e consciência tranquila. O que os senhores da Casa Branca dizem está dito e resta aos fiéis repeti-lo até à exaustão.
Esta seria uma história de encantar não fora dar-se o caso, como dizia há dias alguém, de ter demasiado chefes e poucos índios. Sucede que um dos chefes, de tanto argumentar para convencer os índios, acabou por se desmascarar. Falamos, no caso vertente, de Colin Powell, alto responsável da administração norte-americana, a quem coube apresentar no conselho de Segurança da ONU, a 5 de Fevereiro, as «provas» de que o Iraque possuía armas de destruição maciça, que recusava destruir, e por isso deveria ser alvo da justiça vingadora do mundo.
Colin não convenceu os membros do Conselho, mas nem por isso os seus seguidores deixaram de lhe repetir os «argumentos» até à náusea. Estavam as coisas neste ponto quando, esta semana, veio a público uma informação incómoda, e ainda por cima de fonte insuspeita de anti-americanismo. Dois inspectores da equipa de Hans Blix no Iraque - um alemão que pediu o anonimato e um norueguês, Joern Siljeholm - garantem que Powell mentiu ao apresentar como «provas» fotografias tiradas por satélite onde se podiam ver alegados laboratórios de armas biológicas montados em camiões.
Segundo os inspectores, os veículos em causa não passavam de camiões-cisterna ou carros de bombeiros, perfeitamente identificados pela ONU. Siljeholm, que trabalha no Instituto de Tecnologia de Massachussets, garante mesmo que «se os testemunhos (de Powell) tivessem sido analisados, ter-se-ia chegado à conclusão que eram totalmente falsos».
As denúncias dos inspectores foram divulgadas anteontem num programa da televisão pública alemã, ARD, mas a imprensa «livre» das democracias ocidentais não lhes prestou atenção. Os comentadores de serviço têm outras preocupações. Consumada a invasão e destruição do Iraque, preparam-se já para novas cruzadas. Tão democratas e tão defensores da verdade como antes.
Subjacente ao discurso da necessidade de desarmar Saddam Hussein está a ideia peregrina de que as armas são más quando nas mãos erradas, mas que as mesmas armas são boas quando nas mãos certas. O facto de que tais armas, seja quais forem as mãos que as detenham, servem sempre para o mesmo fim, isto é, matar, tornou-se aparentemente irrelevante. O que tem em si uma outra ideia, não menos singular: a de que a destruição maciça pode ser uma coisa boa se for usada por «uma boa causa».
Questionar as intenções dos EUA não é, naturalmente, coisa que se faça, adquirida que está a sua condição de país campeão da liberdade e da democracia. Assim sendo, os seguidores dos states defendem as teses de Washington, com confiança cega e consciência tranquila. O que os senhores da Casa Branca dizem está dito e resta aos fiéis repeti-lo até à exaustão.
Esta seria uma história de encantar não fora dar-se o caso, como dizia há dias alguém, de ter demasiado chefes e poucos índios. Sucede que um dos chefes, de tanto argumentar para convencer os índios, acabou por se desmascarar. Falamos, no caso vertente, de Colin Powell, alto responsável da administração norte-americana, a quem coube apresentar no conselho de Segurança da ONU, a 5 de Fevereiro, as «provas» de que o Iraque possuía armas de destruição maciça, que recusava destruir, e por isso deveria ser alvo da justiça vingadora do mundo.
Colin não convenceu os membros do Conselho, mas nem por isso os seus seguidores deixaram de lhe repetir os «argumentos» até à náusea. Estavam as coisas neste ponto quando, esta semana, veio a público uma informação incómoda, e ainda por cima de fonte insuspeita de anti-americanismo. Dois inspectores da equipa de Hans Blix no Iraque - um alemão que pediu o anonimato e um norueguês, Joern Siljeholm - garantem que Powell mentiu ao apresentar como «provas» fotografias tiradas por satélite onde se podiam ver alegados laboratórios de armas biológicas montados em camiões.
Segundo os inspectores, os veículos em causa não passavam de camiões-cisterna ou carros de bombeiros, perfeitamente identificados pela ONU. Siljeholm, que trabalha no Instituto de Tecnologia de Massachussets, garante mesmo que «se os testemunhos (de Powell) tivessem sido analisados, ter-se-ia chegado à conclusão que eram totalmente falsos».
As denúncias dos inspectores foram divulgadas anteontem num programa da televisão pública alemã, ARD, mas a imprensa «livre» das democracias ocidentais não lhes prestou atenção. Os comentadores de serviço têm outras preocupações. Consumada a invasão e destruição do Iraque, preparam-se já para novas cruzadas. Tão democratas e tão defensores da verdade como antes.