Contra o imperialismo, a luta continua

Albano Nunes

Não tar­dará muito para que a ocu­pação do Iraque se re­vele uma «vi­tória de Pirro»

Aquilo que o PCP teve a lucidez e a coragem de afirmar desde o primeiro momento confirma-se em toda a linha com a agressão imperialista no Iraque.
O 11 de Setembro constituiu o pretexto forte que os EUA procuravam para passar a uma nova etapa do seu assalto ao domínio do mundo. A chamada «guerra ao terrorismo» tornou-se no leit motiv de uma ofensiva generalizada visando a demolição da ordem democrática e antifascista saída da derrota nazi na 2.ª guerra mundial, e que a Carta da ONU exprime, e a imposição de uma «nova ordem» totalitária hegemonizada pelo imperialismo norte-americano. Quando, após um dilúvio de morte e destruição, cuja real dimensão não conhecemos, os tanques das forças invasoras se instalam em Bagdad para impôr a paz do medo e dos cemitérios, esta é a questão central que é necessário não perder de vista.

De injusta, ilegítima e ilegal a guerra de agressão contra o Iraque, concretizada com o recurso a armas proibidas, o bombardeamento de zonas residenciais e o frio assassinato de civis, tornou-se num crime imperdoável. Um crime tanto mais grave quanto a agressão (é o próprio Hans Blix que o afirma no «Le Monde» de 11.04.03) «estava há muito tempo planificada», nada tendo que ver com nunca provadas ligações da ditadura iraquiana à «Al Qaeda», ou com a questão das «armas de destruição massiva» que tudo indica não existirem. Crime que só pode compreender-se no quadro da política de exploração e dominação fascizante conduzida pela direita norte-americana no poder e como elo de uma cadeia de agressões e ocupações com que os EUA pretendem aprisionar as aspirações libertadoras dos povos e a sua crescente resistência à globalização imperialista e suas medonhas consequências.

Os chorudos lucros das multinacionais e o «modo de vida americano» implicam que a parte de leão dos frutos do trabalho e da riqueza criada em todo o planeta, continuem a jorrar para o centro capitalista desenvolvido e, sobretudo para os EUA. E para isso não bastam o domínio do FMI/BM e da OMC, a ditadura do dólar (aliás em declínio), as trocas desiguais e o garrote da Dívida Externa. Ou melhor, os instrumentos políticos, económicos e financeiros do capitalismo não se bastam por si. Precisam de um braço armado e da política da canhoneira. E tanto mais quanto maior é a distância que nos separa das ilusões e desesperanças provocadas pelas derrotas do socialismo na Europa e suas profundas repercussões na correlação de forças no plano mundial. Daí que (é Paul Kennedy, prestigiado professor de história da Universidade de Yale que o afirma, no «Le Monde» já citado) nos EUA se tenha chegado a um ponto em que «Nenhum homem político pode criticar as forças armadas. Não se pode mesmo pôr em causa o orçamento militar. Este é igual aos da Europa, China e Rússia somados. Isso dá uma enorme vantagem aos EUA».

O poderio militar dos EUA é na verdade colossal. Mas a história mostra que isso não é tudo, nem sequer o mais importante. Não tardará muito para que a ocupação do Iraque se revele uma «vitória de Pirro». A resistência patriótica do povo iraquiano, manifesta nos primeiros tempos da guerra, é um facto adquirido que encerra uma grande importância para o futuro. O mundo árabe e muçulmano foi abalado por uma forte comoção popular anti-imperialista bem visível no grande Egipto. As gigantescas manifestações pela paz que tiveram lugar por todo o mundo são portadoras de uma forte carga anticapitalista e anti-imperialista. Há boas razões para pensar que, com a persistente contribuição dos comunistas, a luta não só não vai parar como se vai mesmo intensificar. Em Portugal, na Europa e no mundo. Contra o imperialismo, contra o militarismo, pela paz, pelo desarmamento, pela preservação e democratização da ONU, por uma nova ordem económica e política mundial, mais equitativa e mais justa.


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