Em rota de colisão...
Foi contra a barbárie que fomos à Rota, e em rota de colisão com os seus responsáveis
Domingo, duas da manhã, Marquês de Pombal. Um autocarro do PCP iniciava a longa marcha rumo a Puerto de Santa Maria, Espanha. As notícias chegavam pelo telemóvel: vários autocarros já tinham partido do distrito de Setúbal e a estes iriam juntar-se um autocarro proveniente de Beja e camaradas do Litoral Alentejano e do Algarve. Foi assim que mais de duas centenas de militantes do PCP, em conjunto com activistas da paz de vários pontos do país, rumaram a Espanha para participar na 18.ª edição da Marcha à base militar norte americana da Rota.
Do cansaço de uma viagem de 17 horas de autocarro, ida e volta, dos efeitos de uma marcha pedestre de cerca de 8 km, do comício final com intervenções de companheiros espanhóis e de um português, do rubro das bandeiras do PCP - a única força partidária portuguesa que se mobilizou para a marcha à Rota - e do colorido das de inúmeras organizações espanholas, da alegria e determinação dos marchantes ibéricos, do convívio e do retemperar de forças antes do regresso a Portugal, falará esta edição do «Avante!», o único órgão de comunicação social português que acompanhou os portugueses nesta deslocação.
A Marcha à Rota é um acontecimento exemplar da persistência e convicção na luta pela paz, pelo desarmamento, pela dissolução da NATO, pelo fim das bases militares estrangeiras e pela erradicação das armas nucleares na Península Ibérica (que existem na Base da Rota).
A estas «velhas» e tão actuais reivindicações juntou-se este ano um dorido mas forte grito: «No a la guerra!». A Marcha teve um significado e um ambiente especial este ano! Aos que tradicionalmente dedicam este Domingo de fim de Março à luta pela paz, juntaram-se muitos, num colorido mar de gente, unificando, quilómetro a quilómetro, as palavras de ordem. «No à la Guerra», gritavam os espanhóis. Os portugueses retribuíam com um forte «Paz sim, Guerra Não» ou «Partido Comunista, contra a guerra imperialista».
A polícia dizia no fim: «25 mil» (o número real será superior a 50 mil manifestantes). Nós dizemos: mentira! éramos e somos milhões! Muitos milhões de portugueses e espanhóis e iraquianos e americanos e... de todo o mundo, que, frente à «besta» que mata iraquianos, americanos e britânicos e quer «matar» a humanidade com uma guerra ilegal e injusta, grita pelos quatro cantos do mundo «Não à Guerra!».
Foi a guerra! A guerra imperialista e assassina, que fez aquela gente trazer mais gente e elevarmos em conjunto o nosso grito de revolta. A agressão que está a matar um povo, a deixar miúdos paralíticos e estropiados, a desfazer famílias e vidas, a destruir casas, pontes, estradas, a acabar com uma economia já de si atrofiada pelo bloqueio americano. A guerra insana que está a levar doenças ao Iraque por falta de água e alimento. A louca guerra do ditador Bush, que está a lançar ao chão, não as anunciadas «sementes de liberdade e esperança», mas toneladas de bombas e de urânio empobrecido que ficarão naquele solo martirizado a corroerem-se e a corroer a vida de gerações de inocentes iraquianos. A guerra de invasão que manchará de sangue, para todo o sempre as mãos de Bush, de Blair de Aznar e de Durão.
Foi contra a barbárie que fomos à Rota, e em rota de colisão com os seus responsáveis. Viemos com mais vontade de continuar a tentar, todos juntos, parar a guerra. Para o ano lá estaremos, porque após cada marcha da Rota, pela força e convicção que nos imprime, sentimos que é possível vencer a batalha da paz. Até que um dia, como disse um dos oradores no comício final, as bases sirvam apenas para calcular a área geométrica de um triângulo. Entretanto: «La lucha continua e la vamos a ganar».