A embrulhada

Leandro Martins
É cada vez mais difícil distinguir entre a verdade e a mentira na generalidade da comunicação social. No 1.º de Abril, então, a coisa foi de arrasar. Quase me deixei embrulhar no embrulho que o Público preparou, anunciando que Santana Lopes convidara um «artista» para embrulhar a Ponte 25 de Abril e assim distrair os portugueses das suas ralações. Como os planos de Santana - e não as obras, que as não há - usam ser bastante exóticos, cheguei a admitir o embrulho, na embrulhada de notícias. O homem já tem mesmo um «plano de descontracção de Monsanto», e o Público do dia seguinte - que já não era 1 de Abril - assegurava que no parque já há mais polícias que prostitutas. Não sabemos para onde vão elas mudar-se, porque os planos desta gente não são de atacar os males pela raiz mas de «deslocalizar» as coisas. Nem sabemos onde, um dia destes, se poderá encontrar um polícia, livre para correr atrás do crime. Já nem a tradição das petas, que mandava contar uma, com alguma graça e sem mau gosto, no primeiro dia deste mês de abertura à Primavera, já nem essa tradição funciona. Porque dia de mentiras é todos os dias do ano. Basta passar o olhar pelos jornais e zapar a televisão, neste tempo de guerra para «ver» o que valem as declarações e até mesmo as «informações». Os Estados Unidos garantem que as bombas, que já nem cirúrgicas são, mas inteligentes, só destroem palácios do «regime» e, quando os feridos e os mortos se amontoam, os pivôs referem-se a eles, que passam ensanguentados pelos nossos olhos, como «alegados feridos». Milhares de iraquianos ter-se-iam rendido às tropas agressoras, mas afinal era mentira. Chusmas de milhares de refugiados correriam para as fronteiras à espera que fossem abertas e, afinal, era mentira. Fronteiras escancaradas e campos acolhedores ficaram vazios enquanto iraquianos emigrados ou refugiados em outros países limítrofes correm, a expensas suas, a regressar, para morrerem, se preciso for, a defenderem a pátria. E não o regime, como soa bem dizer-se. Todos os dias Saddam morre, mas era mentira. Todos os dias as tropas de Bush e Blair prendem «militares iraquianos», mas era mentira, porque vemos é civis, de mãos atadas e ainda assim recalcitrantes e acusadores. Todos os dias são tomadas as cidades, mas era mentira, porque as tropas não se atrevem a entrar e «preferem» bombardear mulheres e crianças. Todos os dias, os jornalistas, no terreno iraquiano, que contam como as coisas lhes parecem ser, são desmentidos pela informação «independente» de outros «jornalistas» que acompanham as tropas americanas. E, se não acompanham como deve ser, levam uns tabefes, são presos e mal tratados. A bem da verdade? Não. É mentira. Todos estes dias são 1.º de Abril, um Abril trágico e sem graça nenhuma.


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