Teoria da libertação

Anabela Fino

As forças norte-americanas estavam à espera de ser recebidas no Iraque com flores e fanfarras. Acreditaram que as populações lhes iriam abrir os braços e que em menos de um ápice estariam a pousar para os álbuns de família com criancinhas ao colo e a beber coca-colas com respeitáveis pais de família. Poucos terão duvidado de que seriam vistos como libertadores, e que qualquer ração de combate ou embalagem de pastilha elástica bastaria para compensar os inevitáveis «danos colaterais». Mais, estavam convictos de que as diferentes «tribos» iriam aproveitar a presença estrangeira para acertar contas antigas e ajudar dessa forma ao derrube do regime.

Ao fim de quinze dias do mais brutal bombardeamento sucede, para grande perplexidade dos americanos, que nada do que esperavam aconteceu. As tropas queixam-se de que sofrem emboscadas, as esperadas rebeliões não dão sinal de rebentar, os habitantes das cidades sitiadas saem para se abastecer de água e regressam a casa, os campos de refugiados permanecem vazios, os iraquianos no estrangeiro estão a voltar para defender o país.

Tudo leva a crer que os soldados norte-americanos não aprenderam nada desde a primeira Guerra do Golfo, quando a maioria nem sequer era capaz de localizar o Iraque no mapa. Entretidos em guerras, faltou-lhes certamente o tempo para lerem uma história das mil e uma noites, para descobrir a lenda da torre de Babel, para imaginarem sequer como teriam sido os jardins suspensos da Babilónia. Perderam assim uma boa oportunidade para perceber que os iraquianos são herdeiros de uma cultura milenar de que justamente se orgulham, têm uma profunda consciência nacional, e que entre um tirano e um invasor estrangeiro escolhem a pátria.

Que pode pensar este povo, conhecido pela sua tolerância religiosa, de quem lhe despedaça familiares e amigos com bombas de fragmentação, lhe bombardeia as cidades, o deixa sem água nem electricidade, sem comida e sem medicamentos, enquanto vai garantindo que esta é uma guerra abençoada por Deus para libertar o Iraque?

Conta um colaborador do Público, na edição de anteontem, que um capitão americano, desesperado por conseguir colaboração das populações, prometeu aos habitantes de uma cidade «desesperadamente pobre» fornecer-lhes electricidade, água potável, comida e medicamentos em troca de informações sobre os paramilitares que têm perseguido ou emboscado as forças norte-americanas. «Da boca de Deus para a minha, nós vamos ajudar-vos, não vos vamos deixar desamparados», terá dito o capitão. Seria burlesco se não fosse trágico. Faltam palavras para designar tão abjecta chantagem, mas não duvidemos que está certamente à altura de Bush, o defensor da «guerra preventiva» inventada por Adolfo Hitler.

Segundo o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o presidente norte-americano Eisenhower, terá dito em 1953 que não levaria a sério ninguém que viesse propor-me uma coisa semelhante». Mas Eisenhower não conheceu Bush, nem a sua teoria da libertação. Os que o conhecem percebem agora porque é que, como conta Galeano, numa manifestação pacifista em Nova Iorque alguém teve a feliz ideia de fazer um cartaz com a pergunta. «Como é que o nosso petróleo foi parar debaixo das areias deles?»



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