Um sinal de futuro
A Guerra do Golfo de há doze anos, constituiu o primeiro passo concreto para a criação de uma nova ordem mundial – imperialista, de cariz totalitário, incontestável e incontestadamente liderada pelos EUA.
A pretexto da «libertação do Koweit» (que, recorde-se, havia sido ocupado pelo Iraque com o conhecimento e o aval do governo norte-americano...) os EUA descarregaram toneladas de bombas quer sobre o país que diziam querer lbertar quer sobre o Iraque, e foram até onde os seus interesses de momento e a correlação de forças existente lhes permitiram ir.
Vivia-se, então, um tempo em que se avizinhava a maior tragédia que alguma vez atingiria os trabalhadores e os povos do mundo: o fim da União Soviética. A traição de Gorbatchov dava o empurrão final à URSS e aos restantes países da comunidade socialista do Leste da Europa para os braços ávidos do capitalismo internacional. O mundo unipolar que se anunciava traduzia uma profunda e negativa alteração na correlação de forças internacional e o futuro imediato viria a confirmar que o fim da URSS abriria as portas a terríveis retrocessos e regressões civilizacionais: direitos e conquistas históricas dos trabalhadores e dos povos viriam a ser liquidados; as desigualdades e as injustiças sociais acentuavam-se aceleradamente; a lei da força sobrepunha-se à força da lei e os conflitos bélicos multiplicavam-se em larga escala; a tarefa do capitalismo de passear pelo mundo a sua essência opressora, exploradora, repressiva, criminosa, ficava consideravelmente facilitada e a incompatibilidade entre capitalismo e democracia evidenciava-se com nitidez; os EUA declararam-se líderes da nova ordem imperialista nascente e foram aplaudidos como tal pela «comunidade internacional», ou seja, pelo conjunto dos países mais poderosos.
Um massacre brutal
Importa lembrar que a guerra do golfo de 1991 constituiu um massacre brutal, selvagem, bárbaro, inumano: mais de duzentas mil pessoas, na sua maioria civis, foram mortas no decorrer dessas seis semanas de guerra, o país foi devastado, destruído, dilacerado. Na euforia da vitória os ocupantes norte-americanos entregaram-se a divertimentos eminentemente democráticos: ficou célebre (apesar de silenciada pela comunicação social portuguesa) a «carnificina da estrada de Baçorá» - em que milhares de iraquianos, civis na sua esmagadora maioria, foram metralhados e mortos e feridos pelas tropas norte-americanas; ficou igualmente célebre (apesar de silenciado pelos media nacionais) o tratamento dado a vários soldados iraquianos vencidos e rendidos e que as tropas norte-americanas enterraram vivos no deserto.
Nessa altura, tal como agora, os media diziam que a guerra era da «exclusiva responsabilidade de Saddam Hussein» e, por isso, «inevitável»; além disso, era o «bem» contra o «mal», era uma guerra «santa» e «justa», «limpa», «cirúrgica» e «sem mortes» - na pior das hipóteses haveria uns insignificantes «danos colaterais» que, porque se traduziam na morte de iraquianos e não de norte-americanos, careciam de importância e de significado humano.
De então para cá muita coisa mudou no mundo: o imperialismo norte-americano foi consolidando a sua liderança incontestável e incontestada; na nova ordem dominante cresceu e desenvolveu-se uma perigosa vertente fascizante; Clinton foi eleito presidente do Império e prosseguiu sistematicamente o sonho americano de domínio do mundo; a Jugoslávia foi destroçada à custa das vidas de muitos milhares de seres humanos; o embargo ao Iraque provocou a morte de mais de dois milhões de pessoas; Bush filho ocupou a presidência graças a uma eleição que é bem elucidativa do conteúdo democrático do regime (recorde-se: para além de ter tido menos votos do que o seu adversário, o eleito, só o foi graças a uma monumental fraude; isto numa eleição em que participou menos de um terço dos eleitores e num país onde parte considerável dos cidadãos não tem direito de voto). E foi este Bush filho (que alia ao atropelo democrático que foi a sua eleição uma ridícula imagem de retardado intelectual, uma visível carência de inteligência e uma divertida ausência total de cultura – quem carregou no botão que desencadeou a actual guerra: guerra pelo petróleo, pelo domínio territorial, pelo reconhecimento universal incontestado da liderança norte-americana.
Entretanto, algo mudou, noutros sentidos: cresceram as multidões exigindo a paz; a França, a Alemanha, a Rússia – entre vários países – disseram não aos EUA. Ou seja: o líder foi contestado. E há nesta contestação – talvez o dado de maior novidade - um iniludível sinal de futuro.