Super-patriotas passaram a «gangsters»
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, sempre assentou a melhor parte da sua estratégia quanto às questões verdadeiramente nacionais na solução do problema do Ulster. E gritaria vitória num terreno complexo onde todos os outros falharam. Agora, Tony Blair mergulhou num oceano onde as águas são, ainda, mais escuras, as da sua campanha pela guerra contra o Iraque e as da desesperada defesa do lugar de «leader» do Partido Trabalhista que lhe dá o cargo de primeiro-ministro. O Ulster que espere.
O presidente da Câmara de Belfast (Alex Maskey), foi, há meses, o primeiro membro do IRA (Irish Republican Army) e do partido político «Sinn Fein» a vencer as eleições para aquele cargo. Logo a bandeira tricolor republicana surgiu hasteada no imponente edifício de colunas do «City Council» de Belfast. Uma vista única para quem assistiu à cerimónia. Os protestantes-unionistas insurgiram-se. Passados séculos de opressão sobre os católicos, os republicanos, os amigos da Irlanda unida, os progressistas e patriotas, os intratáveis orangistas não podiam aquietar-se quando um antigo preso político ofereceu a bandeira ao presidente da edilidade. Na perspectiva de nova guerra civil, chegou-se a um compromisso. O «Union Jack», bandeira da Grã-Bretanha, flutuaria lado a lado com a tricolor irlandesa. E as coisas acalmaram.
Entretanto, na histórica Derry, onde no século XV os primeiros invasores britânicos se dedicaram à plantação das terras virgens irlandesas trabalhando por conta de comerciantes e banqueiros da City (centro do capitalismo em Londres), um novo foco de atrito surgiu. O facto é que a Câmara local, dominada por membros do «Sinn Fein», decidiu que a cidade abandonaria o nome falso de Londonderry que uma ordem real estabelecera em 1613, para recuperar o verdadeiro, o de Derry City. Não se fizeram esperar os protestos dos unionistas acentuando que o proposto e votado retorno ao nome histórico não passa de um plano republicano para eliminar focos da cultura protestante.
Um «acto final» impossível
Enfraquecida a polícia, é o exército, agora, que assegura 1170 serviços de patrulha, semanalmente. Nestas condições de instabilidade, Tony Blair, como sempre incapaz de encarar os problemas com franqueza e verdade dada a sua pobreza ideológica e os seus claros compromissos com o imperialismo, voltou-se para o IRA, dizendo: «Os esforços feitos para chegar a soluções pacíficas nesta província chegaram a um ponto decisivo. Agora, só falta o acto final de todo o processo: que o IRA deixe de ser uma organização militar activa». Mas o jornal patriótico «Na Phoblacht», respondeu-lhe: «Dado que o governo britânico admitiu não ter respeitado todos os compromissos que assumiu no Acordo de Sexta-Feira Santa, o IRA suspendeu todos os seus contactos com a Comissão Internacional para o Desarmamento no Ulster».
Apesar das instáveis condições políticas, os «chefes» da guerra civil protestante começaram a mostrar a sua tendência para actividades laterais: o comércio ilegal, os negócios subterrâneos, a prostituição, as drogas, a protecção. Um desses «chefes», Johnny Adair, foi, para sua própria segurança, mandado encarcerar pelo actual secretário de Estado, Paul Murphy. Os «chefes», profundamente desprezados até em muitos meios protestantes, decidiram abrir as hostilidades entre si e marcar territórios de influência. Já neste mês de Fevereiro, o assassínio do «comandante» John Gregg, da «Ulster Defence Association», deu lógica a receios de que essas hostilidades tenham começado. Gregg, autor de uma tentativa contra a vida de Gerry Adams (actual presidente do Sinn Fein) em 1984, e Robert Carson, foram emboscados e mortos na zona das docas de Belfast quando regressavam de uma partida de futebol em Glasgow. Os assassinados tinham tomado a iniciativa de expulsar Adair e John White, da UDA, em Setembro. É de supor que Adair (Mad Dog = Cão Louco) tenha participado neste «golpe» em representação da Companhia «C» da Shankill Road, assim se compreendendo a decisão de encarcerá-lo enquanto as investigações prosseguem.
Adair está, actualmente, na prisão de Maghaberry. Segundo o secretário de Estado «trata-se de um perigo para a sociedade». A ministra para os assuntos da Segurança em Belfast, Jane Kennedy, declarou: «O povo da Irlanda do Norte está farto destas épocas de assassínios e de cenas de tiros entre grupos de criminosos». Assim se vê contra quem lutam o «Sinn Fein» e o IRA, dizemos nós.