«A guerra não é inevitável»
Na noite de segunda-feira, os dirigentes dos Quinze aprovaram um texto de compromisso sobre o Iraque, em que reafirmam que a guerra não é inevitável e que as inspecções devem prosseguir.
O documento começa por reafirmar as conclusões do Conselho de Assuntos Gerais e Relações Exteriores de 27 de Janeiro, bem como os termos das diligências efectuadas em 4 de Fevereiro junto do Iraque, os quais «permanecem válidos».
Na reunião, Tony Blair e José Maria Aznar, os mentores da carta de apoio à política dos EUA, foram fortemente criticados, designadamente pelo primeiro-ministro belga, Louis Michel, para quem a missiva «transmitiu um sinal de divisão da Europa». Por seu turno, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Joska Fischer, notou que «se tivéssemos ficado pela declaração adoptada a 27 de Janeiro, esta reunião não tinha sido necessária», aludindo à carta dos oito líderes, onde se inclui Durão Barroso, divulgada três dias após aquela data.
Os Quinze consideram que as Nações Unidas devem continuar no centro da ordem internacional e declaram o seu apoio «sem reservas» ao Conselho de Segurança das Nações Unidas no exercício das suas responsabilidades, ao qual incumbe «o desarmamento total e efectivo» do Iraque. Ao mesmo tempo sublinham o desejo de «atingir este objectivo de forma pacífica», acrescentando que tal corresponde de forma «clara» à vontade das «populações da Europa».
«Pleno apoio» é ainda manifestado ao trabalho dos inspectores das Nações Unidas, que devem obter «o tempo e os meios que o Conselho de Segurança considera serem necessários», embora se ressalve que «as inspecções não podem prosseguir indefinidamente na ausência de uma plena cooperação iraquiana».
Esta foi a frase que acabou por substituir a exigida pelo Reino Unido de que «o tempo se está a esgotar rapidamente» e que foi cabalmente rejeitada pela Alemanha, o único país da UE que exclui qualquer hipótese de intervenção no Iraque. Por isso, afirmou o chanceler Schröder, tal formulação «é inaceitável».
O documento sublinha igualmente que «a guerra não é inevitável» e que «o recurso à força não deve ser utilizado se não em último recurso». No entanto, os Quinze lançam um aviso: «O regime de Bagdade não deve iludir-se: O Iraque deve desarmar e cooperar imediata e integralmente. Esta, para o Iraque, é a última oportunidade para que a crise possa ser resolvida de forma pacífica».
Por outro lado, os Quinze inserem esta questão no contexto regional, sublinhando a necessidade de dinamizar o processo de paz no Médio Oriente e resolver o conflito isarelo-palestiniano. «O Terror e a violência devem cessar» assim como «as actividades de colonização».
Por último, a declaração aprovada por unanimidade, sublinha a determinação dos Quinze de «trabalhar com todos os nossos parceiros, em particular com os Estados Unidos, para obter o desarmamento do Iraque, a paz e a estabilidade na região e um futuro decente para todas as populações residentes».
O texto é omisso quanto à adopção de uma nova resolução na ONU, possibilidade defendida pelo Reino Unido para justificar uma acção militar. No entanto, é conhecida a posição do presidente francês, Jacques Chirac: o seu país «só pode opor-se a uma segunda resolução da ONU», disse logo à chegada à cimeira.
Candidatos ameaçados
Chirac criticou ainda duramente os países da Europa de Leste que aspiram a entrar na UE, considerando que ao alinharem com a posição guerreira de Washington sobre a crise iraquiana, «perderam uma boa ocasião para estar calados».
«Estes países foram, é preciso dizê-lo, não muito bem educados e um pouco inconscientes dos perigos que comportava um alinhamento demasiado rápido com a posição norte-americana», disse Chirac, em Bruxelas, no final da cimeira extraordinária.
Referindo-se explicitamente à Roménia e à Bulgária, notou que «se queriam diminuir as suas hipóteses de entrar na Europa não podiam encontrar um melhor meio».
Chirac lembrou que o alargamento tem de ser ratificado nalguns países dos Quinze por referendo e a iniciativa dos futuros membros e dos candidatos corre o risco de reforçar «um sentimento de hostilidade» no seio das opiniões públicas. «Ora basta que um único país não ratifique por referendo para que isso não ande», explicou.