A fractura digital

Na mesma semana em que o Parlamento Europeu discutia os impactos das novas tecnologias na empresas europeias, a Comissão anunciou que o programa eEurope 2002 saldou-se por «um sucesso», permitindo duplicar, entre 2000 e 2002, o número de lares na União ligados à Internet que agora se situa nos 43 por cento.

Recorde-se que este programa, integrado na Estratégia de Lisboa, foi lançado no Conselho Europeu da Feira, em 2000, durante a presidência portuguesa da União Europeia, numa altura em que a chamada «nova economia» produzia lucros fabulosos nos mercados de capitais e era apresentada como uma espécie de panaceia para o crescimento económico, para a criação de emprego e para o aumento da produtividade.

Contudo, daí para cá, não só os efeitos económicos se revelaram bastante limitados, incapazes de evitar a actual recessão, como novos problemas sociais foram suscitados pelas novas tecnologias.

No debate da passada quinta-feira, 13, no Parlamento Europeu, Ilda Figueiredo, alertou nomeadamente para «a mercantilização do saber» e a «criação de uma dupla exclusão/marginalização, designadamente para os grupos da população mais desfavorecidos e para a regiões geograficamente mais periféricas ou com problemas e específicos».

Longe de constituírem uma solução milagrosa, na opinião da deputada do PCP, as novas tecnologias vieram criar «fractura digital entre aqueles que têm e os que não têm acesso aos benefícios das novas tecnologias, incluindo as pequenas e médias empresas com dificuldades de tirar cabal aproveitamento das novas oportunidades, dadas as carências de investimento e qualificações».

A necessidade de dar um novo impulso à «nova» economia, que será decidido no Conselho da Primavera, sendo «uma resposta à queda do paradigma», demonstra que afinal «não existe nova ou velha economia, mas apenas racionalidade económica», frisou Ilda Figueiredo.

Portugal é um dos países que não acompanha a média europeia no acesso à Internet, com apenas 32 por cento dos lares nacionais ligados, ligeiramente à frente da Espanha (31 por cento) e da Grécia (14 por cento), mas muito atrás da Holanda, Dinamarca e Suécia, qualquer deles com mais de dois terços dos lares online.

No entanto, a evolução do número de utilizadores não se reflectiu de forma proporcional no comércio através da Internet, uma vez que, em Novembro de 2002, apenas 23,5 por cento usavam a rede para efectuar compras. Neste particular, Portugal está longe da média europeia, com os cibercompradores a ficarem pouco acima dos 10 por cento do total de utilizadores.



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