Registe-se...

Ângelo Alves

Realizado mais uma vez em Porto Alegre (Brasil) sob o conhecido lema “Um outro mundo é possível”, terminou terça-feira o 3º Fórum Social Mundial (FSM). O encontro - que reuniu cerca de 100.000 pessoas, entre as quais cerca de 30.000 delegados, representando 5.500 organizações de 156 países - foi marcado pela luta contra o ataque ao Iraque e contra o Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA) e teve como novidade a participação, pela primeira vez, de dois chefes de Estado: Lula da Silva e Hugo Chávez.

De Portugal partiram para Porto Alegre várias delegações de partidos políticos e outras organizações nacionais. Como nas anteriores edições, o PCP marcou presença com uma delegação que participou no programa central do Fórum, em iniciativas paralelas promovidas pelos camaradas brasileiros do PCdoB e no Fórum das Autoridades Locais. A JCP também deslocou ao Brasil uma delegação que, entre outras actividades, participou no Acampamento da Juventude.

Em representação institucional participaram os dois deputados do PCP no Parlamento Europeu e três presidentes de câmaras municipais geridas pela CDU. No total, e incluindo participações a título individual, estiveram em Porto Alegre cerca de uma vintena de comunistas portugueses.

 

Poderá o leitor ficar surpreso com o detalhe informativo desta coluna, que se quer sobretudo opinativa e de análise. A decisão é consequência da forma como os “media” nacionais trataram o FSM, ocultando presenças e dando uma imagem distorcida do Fórum.

A “passagem” de Lula pelo FSM – uma decisão natural, tendo em conta o seu passado de sindicalista, dirigente de um Partido que esteve na génese do FSM (PT) e participante em edições anteriores do mesmo - seguida da sua participação no Fórum Económico Mundial foi amplamente explorada. Utilizando este facto num “assinalável” esforço para conferir visibilidade às teorias mais recuadas que circulam dentro do Fórum, tentaram vender-se as teorias do “contrato” entre Porto Alegre e Davos e da coincidência de preocupações nos dois Fóruns, quando a realidade é exactamente a oposta: antagonismo de posições e de interesses.

Relativamente às presenças portuguesas, a distorção foi ainda maior. Ou porque parte das notícias foram retiradas de notas de agências internacionais ou enviadas por jornalistas de órgãos de comunicação brasileiros, ou então porque não interessava dar a ideia real de todos os que estiveram em Porto Alegre. Promoveram-se algumas figuras de cartaz que tendo caído nas graças de alguma comunicação social portuguesa como os “proprietários” da “anti-globalização” em Portugal parecem “ofuscar” outras organizações e forças claramente anticapitalistas que no nosso país mobilizam os portugueses na luta pelo outro Portugal que é possível e que, sem dúvida, passa pelo fim do Pacote Laboral; pela revitalização do aparelho produtivo nacional e pela séria discussão da sua propriedade; pelo impedimento da privatização das funções sociais do Estado; pela valorização dos salários e defesa de direitos; pela melhoria das condições de vida das populações locais e pelo não envolvimento de Portugal em aventuras militaristas de cariz imperialista.

 

Ocultou-se ainda, e mais uma vez, a presença do PCP.

Assim, e para que fique registado, reafirmamos que o PCP também esteve em Porto Alegre! Sem quaisquer dúvidas, reservas ou condicionalismos esteve de corpo inteiro, defendendo as suas ideias, o seu projecto, os seus ideais, o seu nome e a sua história.

Levámos a nossa experiência, o testemunho das nossas lutas, as nossas próprias reflexões. Levámos a solidariedade e a camaradagem dos comunistas portugueses.

Registe-se: Para nós Porto Alegre é importante, é positivo!

Não foi e não será um ponto de chegada ou de partida. Nem será, pela nossa mão, transformado numa entidade tutelar da luta anti-globalização a nível mundial. Deverá continuar a ser, na nossa opinião, uma importante expressão concreta da crescente força colectiva de contestação ao sistema capitalista.

Foi dessa força que o FSM nasceu. E será contando com todos os que. com a sua luta, contribuem para essa força comum, e respeitando a sua identidade, autonomia, independência e história, que se conseguirão construir muitos mais e melhores Fóruns Sociais.

E registe-se ainda: Não fomos a Porto Alegre para qualquer recauchutagem ou revisão de sistema. Fomos ao FSM com a nossa cara e opinião para afirmar que um outro mundo é possível. Um mundo radicalmente diferente que, fruto da vontade e da luta dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo, cremos ser socialista.



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