Coreia e EUA

Jorge Cadima

Os EUA atacam e agridem países à revelia de qualquer norma internacional

Em 1994 os EUA estiveram à beira de atacar a Coreia do Norte. A confissão, recente, é do então Presidente Clinton (BBC, 16.12.02). William Perry e Ashton Carter, Secretário e Vice-Secretário da Defesa dos EUA em 1994 escrevem no Washington Post (20.10.02): «passámos boa parte da primeira metade de 1994 a preparar a guerra na Península Coreana. [...] Preparámos os planos para atacar as instalações nucleares da Coreia do Norte e para mobilizar centenas de milhar de soldados Americanos para a guerra que provavelmente se teria seguido. [...] um ataque [à central de produção energética de] Yongbyon, embora cirúrgico em si mesmo, seria tudo menos cirúrgico nos seus efeitos globais. O provável resultado desse ataque seria um surto espasmódico por parte das forças armadas da Coreia do Norte [...] que atravessariam a Zona Desmilitarizada que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul. [...] as forças dos EUA, trabalhando em conjunto com o Exército sul-coreano e utilizando bases no Japão, rapidamente destruiriam o Exército e o regime norte-coreano». Ou seja: lança-se um ataque (de consequências dificilmente previsíveis) contra uma central nuclear civil, para provocar uma guerra que conduza a (mais uma) “mudança de regime”! Os autores escrevem ainda: «os combates duma nova Guerra da Coreia teriam lugar nos subúrbios densamente povoados de Seul. [...] Milhares de tropas dos EUA e dezenas de milhar de tropas sul-coreanas seriam mortas e milhões de refugiados encheriam as estradas. As perdas norte-coreanas seriam ainda maiores». Não há, na boa velha tradição dos senhores da guerra norte-americanos, contabilidade das vítimas civis.

 

O ataque de 1994 não chegou a concretizar-se. Num trabalho com muita informação relevante para a compreensão da actual situação (disponível em www.globalresearch.ca, com data 31.12.02), Gregory Elich afirma que tal deveu-se a dois factos: a oposição irredutível do então Presidente sul-coreano Kim Young-Sam, e uma iniciativa pessoal do ex-Presidente dos EUA Jimmy Carter, que à revelia de Clinton, anunciou publicamente que a Coreia do Norte estava disposta a desactivar a central nuclear desde que fosse garantido um abastecimento energético alternativo. Após alguns meses de negociações, foi assinado um acordo. É esse acordo que os EUA desrespeitaram em vários aspectos (a construção de centrais eléctricas alternativas, e mais recentemente, a anunciada interrupção de fornecimentos de petróleo). Perante esta tentativa de asfixiar o seu país, os dirigentes coreanos optaram por retomar a central desactivada de Yongbyon.

 

Não se pode esquecer o contexto mais vasto. Bush incluiu a Coreia do Norte no famigerado “eixo do mal”. Os jornais norte-americanos (Los Angeles Times, 10.03.02) publicam a notícia de que os EUA alteraram a sua postura face à utilização de armas nucleares, admitindo utilizar essas armas em ataques “preventivos” e fazendo referência explícita à Coreia do Norte como um possível alvo. Os dirigentes coreanos vêm, como todos os outros habitantes do planeta, que os EUA atacam e agridem países à revelia de qualquer norma internacional. A Coreia nunca atacou os EUA. Mas os EUA conduziram, entre 1950 e 53, uma guerra devastadora na Coreia, onde morreram 4 milhões de pessoas. Nas palavras do General americano Curtis LeMay, citado por Elich, «Arrasámos praticamente todas as cidades da Coreia, quer do Norte, quer do Sul [...] matámos mais de um milhão de civis coreanos».

 

Outro aspecto central: a situação da Coreia do Sul, cuja população afirma nas ruas e nas recentes eleições presidenciais, a sua clara vontade de retomar a soberania nacional, libertando-se da tutela militar norte-americana. Os EUA nunca viram com bons olhos a política de reconciliação nacional do Presidente cessante Kim Dae-Jung (e do agora eleito Presidente Roh). Quando Kim visitou o Norte, o International Herald Tribune titulou (22.6.00): «Desanuviamento Coreano alteraria a base da estratégia dos EUA». E escreveu: «a opinião predominante entre os estrategas militares e peritos em segurança é que uma reconciliação na Coreia levaria à redução da presença militar dos EUA». E citou um “perito”: «Após o desaparecimento dessa folha de parra [sic!], teremos que pensar se estamos lá realmente por causa da Coreia, ou a pensar em outras situações». No mesmo parágrafo, fala-se de «uma visão mais clara da China como a principal ameaça à segurança na Ásia». Como afirmam os próprios dirigentes americanos, trata-se duma guerra sem fim... Que é urgente travar antes que seja tarde demais.



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