O baralho

Leandro Martins

O ano novo entra como acabou. Com a mesma apreensão e sentidas dificuldades de muitos, a ostensiva opulência de uns quantos, a zelosa prestação de quem nos governa para que esta ordem das coisas se confirme como a ordem natural que importa, no interesse de alguns, não perturbar. Essa ordem que torna possível que enquanto a imensa maioria dos portugueses deitassem contas à vida para viabilizar um dia de natal ou de fim de ano melhor passado, uns quantos partissem a caminho de uns dias de férias paradisíacos numa qualquer das muitas ilhas das Caraíbas ou de uma das praias dos novos ricos no Brasil. Entre uns e outros, os que viabilizam e suportam esta ordem : os que teorizam a crise e à conta dela beneficiam, os que proclamam que o tempo é de sacrifício a pensar nos sacrificados de sempre, os que apelam ao sentido de responsabilidade com os olhos postos no catecismo do conformismo e da resignação traduzível naquela máxima de assim é e assim será.. E sobretudo os que em nome de um mandato para cuidar da coisa pública se aprestam a pôr as coisas na ordem que convém.

Assim se virou a página de um novo ano. No termo de um e em inicio de outro aí estiveram pela mão do governo as mesmas promessas de dias bons que estão por vir, a mirifica visão de um Portugal de prosperidade não tarda nada, o grito triunfante em vésperas de êxitos assinaláveis que esta política há de parir logo que o défice esteja estancado e as contas públicas equilibradas. Até lá e em seu nome é o que se conhece : redução dos salários, aumento de preços, menos poder de compra, mais desemprego, nova e dramática incerteza na vida de milhares de famílias, a falência para os pequenos e médios empresários abrindo caminho a uma concentração que a alguns aproveitará. Tudo acompanhado de muita propaganda, do recitar dos milhões arrecadados , das décimas a menos do défice orçamental, alcançados como se sabe não por nenhuma medida séria e sustentada do ponto de vista económico mas sim pelo desbarato de património público com a venda da rede fixa de telecomunicações, pelo saque aos utilizadores da CREL em decisão que a Brisa não deixará de agradecer, pela regularização de dividas ao fisco que tanto quanto se conhece representa, para além da dimensão que os números revelam, sobretudo receita de pessoas singulares e pequenos e médios empresários. Tudo na melhor ordem com se pode ver pelo facto de sobre uns, que são no caso os mesmo de sempre, recair o preço dos indispensáveis e patrióticos sacrifícios, e sobre os outros lucros e proveitos que se somarão aos que deles todos os dias beneficiam.



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