Ao qu’isto chegou!

José Casanova

No Telejornal do primeiro dia do novo ano, a RTP, informava a dado momento, naquele rodapé circulante tão bonito, moderno e original: «Estados Unidos preocupados com a Coreia do Norte e o Iraque». Logo a seguir explicou-nos pela enésima vez as razões de tão grandes preocupações: é que (dizem os EUA e a RTP repete) a Coreia do Norte está a construir «bombas atómicas» e o Iraque está a produzir «armas químicas e biológicas».

A RTP nada nos disse sobre eventuais preocupações existentes na Coreia do Norte e no Iraque pelo facto de os EUA estarem a produzir bombas atómicas e armas químicas e biológicas e serem, até, o país que maiores quantidades dessas armas possui e o que maiores possibilidades tem de as fazer chegar e rebentar onde muito bem entender. E a RTP também não nos disse que os EUA foram até hoje o único país do mundo que lançou bombas atómicas sobre populações civis; nem nos disse que os EUA, sozinhos, lançaram mais armas químicas e biológicas sobre seres humanos do que todos os restantes países do Mundo, em conjunto.

Mas as coisas são como são: a RTP, à semelhança dos média seus congéneres, públicos e privados, divulga tudo o que aos EUA interessa que seja divulgado.

Tudo e mais alguma coisa, estou em crer, especialmente depois de ver, nesse mesmo Telejornal de 1 de Janeiro e no mesmíssimo rodapé circulante, a sensacional notícia sobre a comemoração da passagem do ano, por milhares de pessoas, em «Nova Iorque, capital do Mundo». Nem mais: «Nova Iorque, capital do Mundo»!.

Não sei se algum canal de televisão estado-unidense ousou alguma vez apelidar a cidade de Nova Iorque de «capital do Mundo». É possível que sim. Mas, ainda que tal tenha acontecido, por que carga de água há-de a RTP fazer o mesmo?

Não sei se a RTP recebeu ordens (internas ou externas, da Defesa nacional ou do Pentágono ianque, do SIS ou da CIA, eu sei lá...) para passar a chamar a Nova Iorque «capital do Mundo». É possível que não. O que torna ainda mais difícil de entender o porquê, por parte da RTP, deste reconhecimento explícito do Império com direito a decidir quem deve e quem não deve ter armas, quem deve e quem não deve utilizá-las e matar, quem deve e quem não deve ser morto; enfim, deste reconhecimento explícito do Império como polícia e dono do Mundo – de um Mundo para o qual a RTP escolheu, ela própria, uma capital: Nova Iorque.

Senhores, ao qu’isto chegou!

 



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