A América no ventilador
A pobreza e a fome estão a alastrar e milhões de trabalhadores enfrentam o espectro do despejo
A vaga de protestos, abarcando já mais de 200 cidades de praticamente todas as regiões dos EUA, entrou na segunda semana. A omnipresente palavra de ordem «Não consigo respirar» condensa o largo sentimento de indignação, frustração e revolta, cuja explosão é precipitada pelo dilacerante homicídio «em directo» de um cidadão afro-americano, asfixiado sob os joelhos da polícia. O nome de George Floyd junta-se a uma lista infindável de vítimas do aparato de violência racial e sistema segregacionista prevalecente nos Estados Unidos. O racismo tem uma história longa e raízes estruturais nos EUA e há que sublinhar que estas são inseparáveis da sua dimensão de classe. É impossível ignorar o clamor das muitas centenas de milhares que se manifestam nas ruas. No concreto, exigem dignidade, igualdade e justiça social.
As coisas estão pior do que há 50 anos, quando foi assassinado Martin Luther King, a economia está mais frágil do que em 1968, reconhece um colunista da CNN.Tem que se recuar aos anosda Grande Depressão para captar a dimensão da actual crise capitalista no país.Há mais de 50 milhões de desempregados, um número que está para além do reflectido na taxa oficial de desemprego, a roçar os 15 por cento. Enquanto a economia se afunda, a maioria dos norte-americanos vê há décadas os salários estagnados. A pobreza e a fome estão a alastrar e milhões de trabalhadores enfrentam o espectro dodespejo. No pesadelo americano, a iníqua concentração da riqueza, no reverso da generalizada precariedade e exploraçãolaborais, já era a marca de toque do sistema, ainda antes da pandemia fazer estalar a falsa estabilidade social e desmascarar as balelas de Trump sobre o estado vigoroso da economia. As profundas marcas de classe que ditam, por exemplo, que na maior economia mundial não exista um sistema universal de saúde revelam-se hoje trágicas, aliando-se ao desvario da Administração. A pandemia da COVID-19 já matou mais de 105 mil pessoas, mais do que em qualquer outro país. A maioria são afro-americanos.
Eis a amostra da atmosfera socialcada vez mais irrespirável e o contexto em que um novo e abjecto crime racial fezsaltar a revolta, sobrepondo-se ao medo da pandemia. Não era este o desconfinamento auspiciado por Trump e os sectores mais reaccionários da classe dirigente dos EUA, que reagem com a tentativa de criminalização dos protestos, a provocação da violência policial e o apelo à mobilização do exército. Querem impor a ditadura e dar o nó no processo de fascização que silenciosamente faz o seu caminho. Passou quase despercebida a notícia recente de que, pela primeira vez desde o 11 de Setembro, foi criada uma lista de vigilância de segurança nacional que inclui cidadãos sem conexões ao terrorismo. Ao mesmo tempo quegrupos provocadores neonazis e anarquistas semeiamas pilhagens e o caos, Trump procura estabelecer um paralelo entre antifascismo e terrorismo.
Com a casa a arder e em ano eleitoral, a política dos EUA torna-se ainda mais perigosa e imprevisível. A vasta ofensiva contra a China está ao rubro, mas economistas, como Stiglitz, advertem que, apesar de toda a carga demagógica do «América grande de novo», a tendência de desindustrialização e terceirização da economia apenas se aprofundará. Até aqui chegou o processo de estagnação imperialista.