• Henrique Custódio

Os coletes

No sábado, em França, fez-se uma manifestação mobilizada nas redes sociais e conhecida pelos «protestos do colete amarelo», devido aos manifestantes envergarem os coletes em uso nos automóveis. Esta manifestação nacional foi o corolário dum protesto contra o aumento do preço dos combustíveis, onde os «coletes amarelos» entupiram a França com sucessivos cortes de estrada, decorrendo a semiparalisação do país e a escassez dos produtos nas grandes superfícies.

A manifestação do passado sábado mobilizou 75 mil pessoas em várias cidades francesas (dados da polícia, o que significa muito mais gente) e, em Paris, a zona do Arco do Triunfo foi palco de protestos imensos e persistentes, que os 5000 polícias mobilizados (metade da força de intervenção do país) conduziram aos «confrontos», que os repórteres no local atribuíam aos «profissionais do protesto», misturando extrema-direita e extrema-esquerda com o à-vontade de quem olimpicamente ignora o que seja uma coisa e a outra.

Foi por essa ponta que Emmanuel Macron pegou, no regresso da reunião do G20 em Buenos Aires e quando se dirigiu ao Arco do Triunfo para «cumprimentar os heróis» em parada que haviam ali «detido a barbárie», declarando que «tolerava manifestações» mas «castigaria severamente» quem quisesse «semear o caos». Duma penada, o enérgico presidente francês reduziu assim os protestos nacionais contra a sua política (inicialmente contra os combustíveis, depois contra o Governo e até pela demissão de Macron) a uma bagarre de «provocadores» que ele ameaçou «castigar severamente». Ou seja, ignorou com deliberação os protestos no país inteiro contra a sua política de aperto do cinto dos trabalhadores, protestos que «ele tolerava», mas para os quais se está imperialmente marimbando.

Aliás, do alto dos seus 23% na primeira volta das presidenciais francesas (só ganharia na 2.ª volta porque a generalidade do eleitorado quis travar a oponente proto-fascista Marine LePen), Macron bisbilha frémitos imperiais no seu protagonismo presidencial, como se viu nas cerimónias napoleónicas da sua tomada de posse ou se confirma regularmente ao pôr-se em bicos-de-pés para fazer parte do grupo que discute o mando imperial do mundo.

O que Macron não vê é o seu país a pôr-se em pé-de-guerra contra as políticas de «austeridade» e retracção generalizada dos direitos salariais e sociais dos franceses, enquanto o seu governo insiste na política inspirada pelos ditames do Eurogrupo e aplaudida pelo patronato.

O que devia preocupar Macron é o descontentamento em crescendo do seu povo, revoltado com a política que lhe está a ser infligida. Revolta que os relatórios policiais sobre a repressão de desacatos e as ameaças judiciais não vão decerto calar.




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