• Luís Carapinha

México em contraciclo

Não foi só a cimeira do G20 em Buenos Aires a ocupar a agenda internacional na semana finda. No extremo oposto do subcontinente, Lopez Obrador assumiu, dia 1, a presidência do México. A vitória do principal candidato de esquerda e dirigente do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) nas presidenciais de Julho foi a mais expressiva do pós-guerra, contrariando a tendência actual de avanço da reacção e dos acólitos do imperialismo na América Latina. Pela primeira vez em perto de 25 anos, o presidente mexicano dispõe de uma maioria absoluta nas duas câmaras do Congresso. A coligação eleitoral Juntos Faremos História que o apoiou venceu ainda em 31 das 32 entidades federativas do país.

O vendaval nas urnas que varreu com largas décadas de poder da direita protagonizado pelos governos do PRI e, durante dois mandatos, do PAN, espelha o estado de verdadeira calamidade a que chegou o México. Apesar de ser a 15.ª economia mundial e a segunda maior da América Latina, está no topo dos países mais desiguais do planeta. As políticas neoliberais e a rendição ao ‘Consenso de Washington’ saldaram-se na estagnação económica e crescimento exponencial da pobreza, atingindo mais de 55 por cento da população. O recuo dos salários reais e a intensificação da exploração é o reverso da medalha da concentração inaudita da riqueza. A emigração cresceu e as remessas provenientes dos EUA são hoje a principal fonte de receitas do orçamento.

O NAFTA e a onda de privatizações contraíram o investimento público e aumentaram o endividamento e a dependência externa – o último acto do presidente cessante, Pena Nieto, foi precisamente a assinatura do novo acordo de comércio com os EUA e Canadá que substituiu o NAFTA, renegociação feita sob a pressão e chantagem da Administração Trump. A corrupção avassaladora gangrena a política e o Estado. A colusão entre o mundo do crime e a política e economia, a impunidade dos cartéis do narcotráfico e as suas conexões profundas a todos os níveis do aparelho de Estado e no plano externo, particularmente nos EUA, fazem do México um dos países mais violentos do mundo. O ano em curso bate o recorde de assassinatos, mais de 28500. A militarização do combate ao narcotráfico dá azo à feroz repressão política e social.

É este o panorama desastroso do capitalismo mexicano e o legado encontrado pelo novo presidente.

Ao tomar posse, Obrador reafirmou a promessa de uma ruptura política. Anunciou a «restauração da democracia», uma série de importantes medidas sociais e de investimento em infra-estruturas e na esfera produtiva. A presença do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tem significado face às pressões e linha de isolamento de Caracas, nomeadamente no quadro da OEA e do ‘Grupo de Lima’ que o México integra.

A «transformação pacífica e ordenada» preconizada por Obrador não deixará de se deparar com poderosos interesses instalados e a relação de enfeudamento aos EUA. O grande capital tudo fará para esterilizar uma real mudança. Na nova página que se abre são colossais os desafios do novo poder e da luta das forças da esquerda mexicana para, contrariando o longo historial de divisões, fragmentação e reabsorção sistémica, não defraudar o contundente voto popular de rejeição da política de direita.




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