Imobilidades
Esta é a semana europeia da mobilidade, do dia sem carro e outras iniciativas similares, num frenesim anual que percorre o País e que a campanha eleitoral fará crescer. Passado o frenesim, tudo ficará na mesma, porque a questão de fundo – a necessidade de romper com a política de direita nos transportes públicos – continuará sem ser abordada.
E se este ano for diferente, será para pior. É que o lema da dita semana faz apelo à rançosa modernidade da «economia partilhada». Como sempre, a coisa é bem feita, e até resulta atraente: desde logo o verbo partilhar é um verbo simpático, um verbo que seria de esquerda se os verbos pudessem tomar partido.
O Ministério do Ambiente explica-nos: «a campanha deste ano visa dar especial ênfase à utilização de bens ao invés da posse dos mesmos. Os prestadores de serviços disponibilizam os seus bens, recursos ou competências, a vários utilizadores através de uma plataforma fornecida por intermediários.» E ainda continua a parecer bonito, mas já se divisa o feio conteúdo.
É que para esta «modernidade» apanhar um transporte público – um autocarro, um comboio, um táxi – não é «partilhar», não é «utilizar um bem em vez de o possuir». Não! Mesmo um serviço público de partilha de carros, como possuía a Carris e foi mandado encerrar, não é «partilhar». Para o Ministério do Ambiente, o que é moderno, o que vai resolver os problemas da mobilidade, é recorrer a «prestadores de serviços» e a «intermediários» para utilizar um transporte individual. O que em si já é errado, mas mais errado fica quando se sabe que essa «economia de partilha» é, no mundo real do capitalismo, uma zona franca para todo o tipo de fraudes, para a exploração e precariedade mais desenfreada, para alargar o domínio das multinacionais a novos sectores, como acontece com os modelos de negócio tipo «uber».
É que a questão de fundo, ao contrário do que vende o Ministério, é mesmo a da posse. Uma posse que deve ser colectiva e não individual.