• Henrique Custódio

Atrapalhação

Passos Coelho anda em sobressalto, encurralado sucessivamente pela realidade e, por isso, exibindo a sua inesgotável falta de vergonha.

Agora resolveu contra-atacar no caso dos dez mil milhões desaparecidos em paraísos fiscais sem controlo do Fisco, com a acusação de que o actual Governo do PS é que devia ter feito tal controlo.

O pormenor de o Governo do PS estar em funções apenas há um ano e os factos ocorridos se terem passado durante o seu próprio executivo não incomoda Passos, tal como não o perturba ter sido o actual Governo do PS a dar com a marosca, averiguando e denunciando o escândalo do encobrimento fiscal praticado pelo governo da direita, que, lembremos, era chefiado pelo próprio Passos.

Aliás, a direcção do PSD anda às aranhas sobre o que fazer, como superlativamente se vê pelas dificuldades em formar listas para as próximas eleições autárquicas (com relevo para Lisboa) ou pela torrente de adjectivos e adjectivações mais ou menos pejorativos com que zurze os adversários, quando alguém no laranjal desvaira pela discursata.

O desnorte do PSD (e do CDS, não esqueçamos o penduricalho) escancarou-se na Assembleia da República, na semana passada, quando se envolveu numa escaramuça com o PS que chegou ao extremo de proporcionar pedidos de tempo para «defesa da honra» por parte do PSD, apurando-se, no devir dos argumentos, que afinal não havia grande honra a defender.

Para memória desta sessão parlamentar ficou o registo de uma das maiores vacuidades vividas no hemiciclo, com o argumentário do PSD a parecer uma espécie de entremez de honorabilidades de taberna, com as defesas da honra a dirimirem-se em copos de três.

As denúncias entretanto surgidas sobre Paulo Núncio enquanto advogado ao serviço de uma empresa petrolífera da Venezuela, carreando muitos milhões de euros para o BES e, daí, para offshores veio agravar o sobressalto do PSD e do CDS.

Recorde-se que Paulo Núncio é o secretário de Estado do governo Passos/Portas já chamado à AR para, ali, assumir candidamente a «responsabilidade política» pela passagem de dez mil milhões de euros para offshores sem escrutínio do Fisco, sem também se saber (nem ele o informar) do seu passado como agente duma empresa petrolífera que usou o BES para enviar enormes quantias para paraísos fiscais, exactamente no período em que Núncio era secretário de Estado e ordenava a não publicação dos tais dez mil milhões de euros para offshores...

A confusão adensa-se, complica-se e resvala para uma mixórdia política, com o PSD e o CDS a esbracejarem vigorosamente, na ilusão de vestir de indignação um estado de espírito que evidencia, sem margem para dúvidas, uma enorme atrapalhação.

 



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