O mural é uma arma
A história é simples, mas exemplar. A célula do PCP na autarquia de Almada pintou nos últimos meses vários murais por todo o concelho, que foram sucessivamente vandalizados. A resposta dos comunistas foi determinada: repor os murais danificados, acrescentando-lhes outros novos.
À cobarde intimidação, os comunistas respondem com a determinação
Foi no dia 6 a última grande jornada de pintura de murais em Almada. Ao final da tarde, dezenas de militantes do Partido e da JCP distribuíram-se por cinco locais e puseram mãos à obra na reposição de outros tantos murais, recentemente danificados. À noite, foram produzidos mais dois, inéditos.
Cumpria-se assim a «promessa» deixada na semana anterior pela Comissão Concelhia de Almada do Partido que, reagindo à vandalização das pinturas, informava que, «como sucedeu noutras ocasiões, voltaremos a pintar os murais destruídos, aos quais somaremos outros novos. A intimidação não resulta com o PCP, pelo contrário, dá-nos mais força para prosseguir o nosso combate».
Esta não foi a primeira vez que os comunistas de Almada se viram forçados, nos últimos meses, a repintar murais vandalizados. Mas nunca como desta vez tiveram que repor tantos em tão pouco tempo – porque nunca tinham sido todos destruídos numa mesma noite.
Nos murais reconstituídos acrescentou-se um novo elemento, uma espécie de «selo» com uma figura humana empunhando uma bandeira vermelha, com o símbolo do Partido e a inscrição E a cada novo assalto/ cada escalada fascista/ subirá sempre mais alto/ a bandeira comunista (o mesmo desenho que serviu de base a um dos novos murais). Se dúvidas restassem, esta «assinatura» tratava de as dissipar: os comunistas não baixarão os braços e não deixarão nunca de afirmar o seu projecto, as suas propostas e os seus ideais. Custe o que custar.
Determinação de sobra
A pintura de murais políticos por parte dos comunistas é uma prática antiga, mas os desta série nem têm um ano. Tudo começou em Outubro do ano passado, quando vários elementos da Juventude CDU que pintavam uma parede junto a uma estação ferroviária do concelho foram identificados pela polícia e impedidos de terminar a sua obra. Poucos dias depois, a célula dos trabalhadores comunistas da autarquia de Almada decidiu apoiar os jovens, juntando-se a eles – daí resultaram duas pinturas, lado a lado. A da Juventude CDU e a primeira levada a cabo pela célula.
Como contaram ao Avante! alguns dos envolvidos, «ficou o bichinho» e, em Março deste ano, a célula resolveu assinalar o 89.º aniversário do Partido com um grande mural numa das mais movimentadas praças da cidade: Com o PCP, Lutar e Vencer, inscreveram. Até à primeira vandalização deste mural (já foi danificado várias vezes), os trabalhadores comunistas da autarquia não tinham a intenção de levar a cabo tão intensa actividade «artística».
Mas, como afirmou um dos membros da célula, «não podíamos deixar assim o mural e decidimos repô-lo!». E decidiram mais, acrescentou outro: por cada pintura destruída seria feita uma nova! Surgiram assim os murais comemorativos dos 140 anos do nascimento de Lénine e dos 120 anos do 1.º de Maio e o mais recente, de promoção da Festa do Avante!.
Quando o primeiro mural foi destruído, confessaram alguns, sentiu-se «alguma frustração e desânimo» no seio da célula. Mas rapidamente estes sentimentos deram lugar à determinação de não deixar aos cobardes a última palavra. Depois da acção de dia 6, certamente que esses ficaram a saber (se não o sabiam já) que essa pertencerá sempre aos comunistas!
Armas de luta
Os elementos da célula que falaram ao Avante! só vêem vantagens nesta sua acção. Os murais «obrigam as pessoas a pensar», referiu um dos militantes, enquanto que outro preferiu falar de «afirmação da célula, para dentro da autarquia e para o exterior». Todos concordam que se trata também de uma excelente forma de demonstrar o vigor do Partido, cujos militantes estão na rua, a dar a cara.
Mas a pintura de murais tem sido importante para o próprio funcionamento da célula, garantem os seus membros. Em primeiro lugar, ao permitir o estreitamento dos laços pessoais. «As próprias reuniões correm melhor desde então», assegura um dos elementos. A organização necessária à pintura dos murais obriga a uma melhor e mais alargada distribuição das tarefas no interior do colectivo e o poder de atracção que esta acção exerce sobre outros militantes fora da célula – e de outros trabalhadores da autarquia, não comunistas – são também referidos como trunfos da pintura de murais.
Noutra coisa todos concordam: a célula do Partido na autarquia de Almada (Câmara e serviços municipalizados) não é um grupo de pintores de paredes. É uma organização do PCP que reúne com regularidade, discute a situação da autarquia e do País, emite e distribui comunicados, organiza e mobiliza para a luta dos trabalhadores. Que se trava também com pincéis, sprays e moldes.
Em Almada como no Porto
Exercer os direitos
Para além de tornarem as paredes da cidade mais bonitas e interventivas, os murais do PCP são, em si mesmo, uma forma de defender os direitos conquistados com Abril. «Temos que usar a liberdade que temos, senão...», deixa escapar uma militante comunista da célula da autarquia de Almada.
Nas várias jornadas já realizadas, os comunistas de Almada levaram sempre consigo a legislação que protege e salvaguarda esta forma de liberdade de expressão política. Mas, confessam, nunca mais voltaram a ter problemas com a polícia.
O mesmo não podem dizer os comunistas do Porto, que recentemente foram impedidos pela Polícia Municipal de pintar um mural no viaduto da rotunda do Bessa. Entre os pintores estavam os deputados Jorge Machado e Ilda Figueiredo. Naquela cidade existe um «regulamento» municipal que restringe a afixação de propaganda, o que o PCP contesta. Como afirmou à comunicação social presente Jaime Toga, da Comissão Política, a propaganda política «não carece de licenciamento» e está defendida pela Constituição da República.