Pândegos

Jorge Cordeiro
Na corrente de refazedores da história da resistência e de branqueadores da ditadura, João Madeira – historiador ao que se diz, e investigador pelo que se acrescenta, epíteto não despiciendo pelo que dá de cientificidade à função original – decidiu discorrer a propósito de Ferreira Soares. Para ele, a versão sobre assassinato há 65 anos de Ferreira Soares pela PVDE – médico comunista e membro do comité regional do Douro do PCP – suscita-lhe as maiores dúvidas.
Para Madeira, o assassinato à queima-roupa não bate certo com os seus padrões de avaliação sobre os métodos da polícia política. Categórico, considera excessiva a versão adiantada e insuficientes os dados que a comprovem; tem por adquirido que a polícia fascista era «mais de prender do que de matar»; admite que a ocorrência pode ter resultado sobretudo de uma «reacção da polícia a algum gesto» brusco de Ferreira Soares; e sentencia, finalmente, que o facto de alguns comunistas à época terem o «hábito de andar armados» poder justificar a precipitação policial. Pelo que da investigação deste eminente investigador resulta a conclusão de que o assassinato de Ferreira Soares é sobretudo um «mito construído pelo PCP para cimentar a sua própria identidade e a sua visão mistificadora e glorificadora da história».
Em duas penadas, Madeira branqueia a polícia e os seus métodos, aligeira as suas motivações e intenções, transforma a vítima em réu, difama e calunia o Partido. Limitado pelo mais obsessivo preconceito, Madeira, continuando a investigar como investiga, acabará ainda por concluir pela tese de legítima defesa por parte dos assassinos de Ferreira Soares ou por justificar a tortura por razões da teimosia dos comunistas em se recusarem a falar na prisão.
Sabendo-se que prepara uma tese de doutoramento sobre a actividade do PCP de 1943 a 1974, e a julgar pela amostra, descontado que seja o preconceito que o inunda, seguro e certo é que revelando-se este João Madeira, em matéria de história do PCP, um pândego, a tese só pode virar paródia.


Mais artigos de: Opinião

O poeta da Revolução de Abril

À passagem de mais um aniversário da data de nascimento de José Carlos Ary dos Santos, lembramos o Poeta da Revolução de Abril – assim gostava o Zé Carlos de ser reconhecido e como tal ficará justamente conhecido.

O Referendo na Venezuela

Ao reflectir sobre os resultados do referendo na Venezuela surgem naturalmente as palavras de Marx: «Seria muito cómodo fazer a História se entrássemos na luta somente com probabilidades infalivelmente favoráveis». Quem porventura julgasse que o aprofundamento democrático e revolucionário do processo Bolivariano iria...

A estratégia do saco de plástico

Na mesma altura em que o espírito de Lisboa pairava na cabecinha pensadora de Sócrates como forma airosa de dar a volta ao texto de uma cimeira que se pautou por muita parra e pouca uva, que é como quem diz «a montanha pariu um rato» daqueles bem pequeninos, na mesma altura, dizia, os portugueses tomavam conhecimento de...

«Buraco negro»

Há um mês, ainda sob o impacto da extraordinária manifestação de 18 de Outubro, o inevitável Manuel Alegre veio a terreiro, na recorrente e rendosa postura de «o Leopardo» de Lampeduza dizer o que é necessário mudar no PS para que tudo fique na mesma. E voltou a vetusta dissertação sem saída – «há um buraco negro na...

«Oportunidades»

No início da semana, o País foi bombardeado com a notícia de que o Primeiro-Ministro José Sócrates havia entregado pessoalmente 62 diplomas aos respectivos formandos de um curso acelerado de 12.º ano para adultos (ao que parece a coisa faz-se em meia dúzia de meses), tudo no quadro de um novo plano expressivamente...