«Oportunidades»
No início da semana, o País foi bombardeado com a notícia de que o Primeiro-Ministro José Sócrates havia entregado pessoalmente 62 diplomas aos respectivos formandos de um curso acelerado de 12.º ano para adultos (ao que parece a coisa faz-se em meia dúzia de meses), tudo no quadro de um novo plano expressivamente designado por «Novas Oportunidades».
Se nos jornais a coisa passou algo despercebida (outras coisas houve a atender sobre o senhor Primeiro-Ministro, no rescaldo das suas cimeiras e preparação de assinaturas, sempre europeias), nas televisões, em todos os canais, a novidade teve hino e fanfarra durante dias, o que tanto confirma a notável sintonia entre o actual Governo e os patrões destes órgãos de comunicação, como a oleada eficácia das assessorias de informação governamentais a abastecer televisões.
Por isso lá vimos, em vários noticiários e em dois dias seguidos, a repetição de um apontamento de reportagem mostrando dois cidadãos perto dos 50 anos, um homem e uma mulher para ser tudo muito abrangente além de exemplar, ambos exibindo, triunfantes e felizes, o diploma recebido das próprias mãos do sr. Primeiro-Ministro e proclamando ao País a excelência desta medida que lhes permitiu, em meia-dúzia de meses do impasse profissional que actualmente lhes assombra o quotidiano, saltar do 9.º ano longinquamente adquirido quando a necessidade de ganhar a vida lhes impôs o abandono escolar, para um repentino e promissor 12.º ano de escolaridade que, no caso da senhora, até já a faz sonhar com uma carreira universitária.
A notícia colocava de seguida no ar a pressurosa informação de que já havia para aí uns 300 mil portugueses inscritos ou a inscrever (não percebemos bem) neste extraordinário programa governamental das «Novas Oportunidades», a que se seguia o prato principal: o Primeiro-Ministro José Sócrates, na sua conhecida toada de quem está sempre a debitar coisas fundamentais num chá-das-cinco, a garantir aos 62 galardoados que se eles se sentiam «mais realizados», ele próprio também se sentia «mais realizado» por participar em tanta realização, rematando com a garantia de que este programa das «Novas Oportunidades» era a cabal demonstração de que «este Governo» se preocupava tanto com a formação dos portugueses, que até abria aos mais velhos a hipótese do «regresso aos estudos».
Ao ritmo de 62 «diplomados» por fornada, lá para fins do actual século XXI os mais velhos deste País devem estar já quase todos a ganhar balanço para a licenciatura.
Mas o importante é que este Primeiro-Ministro tão empenhado em «dar formação» escolar aos portugueses mais velhos é o mesmo que, desde a sua tomada de posse há dois anos e meio, tem vindo metodicamente a diminuir as hipóteses de formação escolar dos portugueses mais novos.
Os primeiros resultados estão já aí, bem à vista: o Ensino oficial e gratuito trazido por Abril degrada-se e vai cedendo ao privado e bem pago, a Escola de gestão democrática abre de novo as portas ao centralismo autoritário do reitor, enquanto se encerram escolas básicas ás centenas, se desqualifica e fragiliza a carreira docente, se afunila o pessoal auxiliar, se reduz em 50% o apoio ao ensino especial e por aí fora.
O Primeiro-Ministro Sócrates devia era aproveitar esta «Oportunidade» para estar calado. Isto se tivesse um pingo de vergonha.
Se nos jornais a coisa passou algo despercebida (outras coisas houve a atender sobre o senhor Primeiro-Ministro, no rescaldo das suas cimeiras e preparação de assinaturas, sempre europeias), nas televisões, em todos os canais, a novidade teve hino e fanfarra durante dias, o que tanto confirma a notável sintonia entre o actual Governo e os patrões destes órgãos de comunicação, como a oleada eficácia das assessorias de informação governamentais a abastecer televisões.
Por isso lá vimos, em vários noticiários e em dois dias seguidos, a repetição de um apontamento de reportagem mostrando dois cidadãos perto dos 50 anos, um homem e uma mulher para ser tudo muito abrangente além de exemplar, ambos exibindo, triunfantes e felizes, o diploma recebido das próprias mãos do sr. Primeiro-Ministro e proclamando ao País a excelência desta medida que lhes permitiu, em meia-dúzia de meses do impasse profissional que actualmente lhes assombra o quotidiano, saltar do 9.º ano longinquamente adquirido quando a necessidade de ganhar a vida lhes impôs o abandono escolar, para um repentino e promissor 12.º ano de escolaridade que, no caso da senhora, até já a faz sonhar com uma carreira universitária.
A notícia colocava de seguida no ar a pressurosa informação de que já havia para aí uns 300 mil portugueses inscritos ou a inscrever (não percebemos bem) neste extraordinário programa governamental das «Novas Oportunidades», a que se seguia o prato principal: o Primeiro-Ministro José Sócrates, na sua conhecida toada de quem está sempre a debitar coisas fundamentais num chá-das-cinco, a garantir aos 62 galardoados que se eles se sentiam «mais realizados», ele próprio também se sentia «mais realizado» por participar em tanta realização, rematando com a garantia de que este programa das «Novas Oportunidades» era a cabal demonstração de que «este Governo» se preocupava tanto com a formação dos portugueses, que até abria aos mais velhos a hipótese do «regresso aos estudos».
Ao ritmo de 62 «diplomados» por fornada, lá para fins do actual século XXI os mais velhos deste País devem estar já quase todos a ganhar balanço para a licenciatura.
Mas o importante é que este Primeiro-Ministro tão empenhado em «dar formação» escolar aos portugueses mais velhos é o mesmo que, desde a sua tomada de posse há dois anos e meio, tem vindo metodicamente a diminuir as hipóteses de formação escolar dos portugueses mais novos.
Os primeiros resultados estão já aí, bem à vista: o Ensino oficial e gratuito trazido por Abril degrada-se e vai cedendo ao privado e bem pago, a Escola de gestão democrática abre de novo as portas ao centralismo autoritário do reitor, enquanto se encerram escolas básicas ás centenas, se desqualifica e fragiliza a carreira docente, se afunila o pessoal auxiliar, se reduz em 50% o apoio ao ensino especial e por aí fora.
O Primeiro-Ministro Sócrates devia era aproveitar esta «Oportunidade» para estar calado. Isto se tivesse um pingo de vergonha.