• Jorge Cordeiro
    Membro da Comissão Política do PCP.

«O PCP é a força mais decidida em pôr em causa os interesses do capitalismo»
Faces do oportunismo
A tese, velha de um século, segundo a qual «só seria desejável a luta que é possível, e possível aquela que se trava nesse momento», é expressão de uma concepção de oportunismo político e ideológico presente há muito no movimento operário.

Hoje, quando a luta, aquela que objectivamente questiona os interesses de classe instalados, se revela mais complexa que nunca e com resultados que se não antevêem fáceis, convém trazê-la à memória. Não para dar asas a sentimentos de desistência, resignação ou desalento, mas justamente pelo contrário, para com plena consciência da situação e condição concretas em que a luta se desenvolve, melhor os enfrentar e rejeitar.
A fronteira entre os que se movem pelos critérios do «possível» prescindindo de se baterem pelo que se apresenta imperativamente como necessário; a fronteira entre os que agem na base do cálculo do êxito e não em função da justeza de o fazer independentemente da avaliação do resultado; a fronteira entre os que navegam no estrito horizonte da ocasião e os que tendo-o em conta não prescindem do objectivo da sua luta; a fronteira entre os que em nome da rejeição de alegadas certezas absolutas perderam há muito a convicção e os que recusando as primeiras não abandonam esta última, — é justamente a fronteira que delimita e diferencia as forças consequentes, necessárias e imprescindíveis na luta contra o capitalismo daquelas outras que, retirado o verniz retórico que as envolve, são não apenas toleradas mas até convenientes, porque inofensivas, aos interesses de classe dominantes.
A presença do oportunismo, nas suas várias manifestações de direita ou de esquerda, é um fenómeno social natural, expressão ideológica do posicionamento e inserção social de determinadas classes, alimentado pela contradição de interesses nelas presente face ao modo de produção dominante. Tê-lo em conta é condição para o enfrentar com serenidade e para lhe dar o combate indispensável que a luta de transformação social requer.
O oportunismo tem, designadamente nos países capitalistas desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, objectiva e subjectivamente uma base «natural» de influência, favorável á sua afirmação e a um, ainda que com limites, crescimento. Uma base social, objectiva, que resulta da proletarização das camadas médias, da insatisfação crescente da pequena-burguesia, das correntes ideológicas dominantes presente na área da formação superior e universitária, de transformações estruturais que contribuem para uma fragmentação social favorável ao individualismo, e da emergência de uma classe operária recente, sem experiência de luta, e parte dela com raízes e ligações à pequena propriedade agrícola. E uma base política construída, num quadro de preconceito anticomunista e de crescente desencanto com as consequências do neoliberalismo e do capitalismo, por uma deliberada atitude de favorecimento por parte do capital, bem patente na simpatia dedicada pela comunicação social a essas correntes, no sentido de desviar da força política mais consequente e decidida a pôr em causa os seus interesses — no nosso país, o PCP — e de assim redireccionar para outros, com conteúdo de classe inócuo, o descontentamento social e político.

Um instrumento de quem teme as forças de classe

No oportunismo de esquerda, mais complexo e menos simplificado que o termo esquerdismo, tende a resumir, e nas suas formas de manifestação, a coexistência de uma orientação próxima da social-democracia de nítido pendor reformista matizada por atitudes anarquizantes e um certo radicalismo verbal não só não é contraditório como é expressão política e ideológica de um espaço constituído por camadas e sectores sociais da pequena burguesia e de outras camadas intermédias. Mas que, á margem destas aparentes contradições, se revela com uma nítida e inalterável orientação na vida política, na intervenção social e no combate das ideias, caracterizada por três aspectos:
O primeiro, a subordinação completa do «objectivo», entendido enquanto aquilo que proclamam querer atingir mas que desde logo abandonam, à ideia do chamado «movimento». Uma atitude consciente e assumida como indispensável para um crescimento e uma atracção oportunista tanto mais conseguida quanto difuso se apresentar o seu projecto e objectivos políticos;
O segundo, a desvalorização do papel da organização enquanto instrumento de luta e de transformação, traduzida na deliberada postura de seguir a reboque do movimento e do espontaneísmo com o único objectivo de neles buscar apoios independentemente do rumo que prossigam;
O terceiro, a completa ausência de um sentido e conteúdo de classe nos objectivos, nas propostas e na acção, substituídos por um ziguezaguear de orientação e por um posicionamento em função do que as ondas de opinião prevalecente recomendam no momento e por uma agregação de «causas» e temas socialmente mais transversais ou identificáveis com grupos sociais específicos, considerados susceptíveis de render novos apoios e não perder a simpatia do poder e classes dominantes.
E sempre, em Portugal como no mundo, um anestesiante precioso da consciência social e política dos que não podem deixar de inscrever a luta contra o capitalismo como objectivo essencial para a sua emancipação e um instrumento ao serviço dos que temem a influência das forças e partidos de classe que lutam por uma nova sociedade.


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