O Cáucaso a resvalar
Aprofundam-se as contradições e prossegue a erosão dos pilares da multinacional Federação Russa
Os acontecimentos dos últimos dois meses no Cáucaso russo vieram demonstrar que a região está longe da apregoada estabilização. Depois do assassinato do presidente tchetcheno, ocorrido em Grozny durante os festejos oficiais do 9 de Maio, no 59º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo, a vizinha república da Inguchétia sofreu um sangrento raid armado nocturno que irrompeu pela madrugada de 22 de Junho, exactamente 63 anos após o ataque da Alemanha nazi à URSS. O conjunto de ataques simultâneos, que deixou um rasto de perto de uma centena de mortos, entre civis, polícias e altos funcionários do governo local, constituiu uma operação militar de grande envergadura, meticulosamente preparada (atente-se ao simbolismo, profundamente provocador, das datas) e efectuada por forças ainda não plenamente identificadas, reavivou o espectro do alastramento da violência separatista para fora das fronteiras da Tchetchénia.
No começo do seu segundo mandato, os desenvolvimentos na frente caucasiana são um revés para o presidente Pútin e a sua política interna de força, decalcada da doutrina da guerra ao «terrorismo internacional». A vulnerabilidade do país, praticamente generalizada, é indisfarçável, apesar da crescente autocracia, do revigorado afã das reformas ultraliberais em curso, e o crescimento mascarado pela alta do petróleo. Num cenário geopolítico regional e internacional desfavorável, com os sectores estratégicos da economia nas mãos da oligarquia, estreitamente ligada aos mecanismos da globalização imperialista – com todas as seríssimas consequências sociais e de segurança nacional conhecidas –, aprofundam-se as contradições e prossegue a erosão dos pilares da multinacional Federação Russa. A regressão capitalista recolocou o maior país do mundo no caminho da decomposição, o que, aliás, é facilmente perceptível só pela (continuada) depressiva dinâmica demográfica: o país perde em média, anualmente, cerca de um milhão de habitantes.
A questão dos laços externos do separatismo no Cáucaso russo volta a ganhar actualidade. Ainda em 1999, antes da «parceria estratégica» com os EUA, o então ministro da defesa Sergueyev fora explícito ao acusar os EUA de apoiar os rebeldes tchetchenos. No rescaldo da incursão na Inguchétia, o jornal «Sovietskaya Rossia» (24.06.04) aponta o dedo à «participação de serviços secretos estrangeiros» na preparação da acção e refere a contratação de mercenários no Ocidente e o seu envio para a Tchetchénia através de países da confiança dos EUA, principalmente a Geórgia. Por sinal, os militares norte-americanos estacionados neste país têm-se dedicado, nos últimos dois anos, à formação e equipamento de unidades de elite do exército georgiano, vocacionadas no «combate ao terrorismo».
Não alheia ao papel crucial de países como a Geórgia no controlo das rotas do petróleo do Cáspio e na estratégia expansionista de pressão sobre a Rússia, a cimeira da NATO de Istambul decidiu, entre outros aspectos, reforçar a parceria euro-atlântica, nas estrategicamente importantes regiões do Cáucaso e Ásia Central.
O consenso em torno do regime protofascista de Saakashvili, personagem que emergiu das entranhas do regime do insustentável – e por isso descartado – Chevarnadze, parece bem mais fácil do que o (agora menos) turbulento dossier iraquiano – onde os consensos se limitam a pouco mais do que o «mínimo indispensável», que é impedir o «descalabro» que seria uma eventual vitória anti-imperialista dos iraquianos. Apesar das disputas e rivalidades dentro da UE e entre esta e os EUA, a concertação e coordenação ocidentais impõem-se quando toca a reeditar as «operações Barbarroxa» dos dias que correm.
O que, no fim de contas, deve ser visto como mais um segmento da confrontação inter-imperialista, que vai ganhando corpo.
No começo do seu segundo mandato, os desenvolvimentos na frente caucasiana são um revés para o presidente Pútin e a sua política interna de força, decalcada da doutrina da guerra ao «terrorismo internacional». A vulnerabilidade do país, praticamente generalizada, é indisfarçável, apesar da crescente autocracia, do revigorado afã das reformas ultraliberais em curso, e o crescimento mascarado pela alta do petróleo. Num cenário geopolítico regional e internacional desfavorável, com os sectores estratégicos da economia nas mãos da oligarquia, estreitamente ligada aos mecanismos da globalização imperialista – com todas as seríssimas consequências sociais e de segurança nacional conhecidas –, aprofundam-se as contradições e prossegue a erosão dos pilares da multinacional Federação Russa. A regressão capitalista recolocou o maior país do mundo no caminho da decomposição, o que, aliás, é facilmente perceptível só pela (continuada) depressiva dinâmica demográfica: o país perde em média, anualmente, cerca de um milhão de habitantes.
A questão dos laços externos do separatismo no Cáucaso russo volta a ganhar actualidade. Ainda em 1999, antes da «parceria estratégica» com os EUA, o então ministro da defesa Sergueyev fora explícito ao acusar os EUA de apoiar os rebeldes tchetchenos. No rescaldo da incursão na Inguchétia, o jornal «Sovietskaya Rossia» (24.06.04) aponta o dedo à «participação de serviços secretos estrangeiros» na preparação da acção e refere a contratação de mercenários no Ocidente e o seu envio para a Tchetchénia através de países da confiança dos EUA, principalmente a Geórgia. Por sinal, os militares norte-americanos estacionados neste país têm-se dedicado, nos últimos dois anos, à formação e equipamento de unidades de elite do exército georgiano, vocacionadas no «combate ao terrorismo».
Não alheia ao papel crucial de países como a Geórgia no controlo das rotas do petróleo do Cáspio e na estratégia expansionista de pressão sobre a Rússia, a cimeira da NATO de Istambul decidiu, entre outros aspectos, reforçar a parceria euro-atlântica, nas estrategicamente importantes regiões do Cáucaso e Ásia Central.
O consenso em torno do regime protofascista de Saakashvili, personagem que emergiu das entranhas do regime do insustentável – e por isso descartado – Chevarnadze, parece bem mais fácil do que o (agora menos) turbulento dossier iraquiano – onde os consensos se limitam a pouco mais do que o «mínimo indispensável», que é impedir o «descalabro» que seria uma eventual vitória anti-imperialista dos iraquianos. Apesar das disputas e rivalidades dentro da UE e entre esta e os EUA, a concertação e coordenação ocidentais impõem-se quando toca a reeditar as «operações Barbarroxa» dos dias que correm.
O que, no fim de contas, deve ser visto como mais um segmento da confrontação inter-imperialista, que vai ganhando corpo.