• Leandro Martins

Ora retoma!
Quando se aproxima a quadra festiva do Natal - já ninguém sabe por que lhe chamam festiva, mesmo quando nos enchem os olhos com centenas de pessoas a comprarem o que podem, já que as que não podem não são «filmáveis» - os assuntos rarefazem-se. Ou parecem rarefazer-se. Pelo nosso lado, somos acusados de insistirmos na desgraça e nas lutas. De facto, não andamos cá para outra coisa a não ser para transformar este estado global de coisas. E as coisas não estão famosas. O desemprego continua a alastrar e vai haver muita gente sem pão, quanto mais peru. As contas à vida são cada vez mais difíceis de fazer e a paz parece não pertencer aos homens de boa vontade, mas àqueles a quem sobra vontade de explorar. E os projectos de futuro que estão na calha para passarem à prática não são aqueles que podem dar trabalho, educação, saúde e esperança. Persistem - o capital e os seus lacaios políticos - a traçar projectos que conformem uma arquitectura velha para os direitos, as garantias e até as próprias liberdades. Basta atentar na gritaria fascistóide que mobiliza as gargantas dos que pretendem uma nova revisão constitucional para acabar de vez com o conteúdo progressista que ainda resta na nossa; basta cheirar o projecto de constituição europeia que pretende conformar os povos deste continente velho onde tanto sangue foi derramado nas lutas pela liberdade e pela democracia, contra o obscurantismo e a opressão.
Mas o discurso, senhores, é de retoma. Nem que seja sistematicamente adiada, nem que, a cada passo em falso, se ergam vozes a desmentir a realidade. Se o défice - argumento e pretexto para aprofundar a exploração dos trabalhadores - afinal aumenta em vez de diminuir; se o PIB, em vez de aumentar desce substancialmente, colocando o País em recessão, nada disso faz inverter as intenções, as práticas e o discurso do poder. Há menos saúde e menos médicos? Há aumentos de propinas? Há empresas a desaparecer? Não faz mal. Temos hipermercados cheios de gente. Ainda há dias tive oportunidade de ver centenas de pessoas a passear por entre milhões de compras que não se fizeram, e até há uma cadeia deles que descobriu o modo de ganhar algum, convidando o público a gastar os escudos que guardara debaixo do colchão. O que é preciso é não desanimar. Temos pela frente um futuro radioso. Talvez com o Euro 2004. Ora retoma lá!


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