Organizações regionais

Onde o recôndito está perto e o tempo parece parar

Na Festa do Avante!, o tempo não pára. Os pés desatinam no descompasso de querer aproveitar tudo, numa correria, vendo as horas passar num relance, os passos apressados dando lugar à descoberta, rumo aos quatro cantos da Quinta da Atalaia.

E ali, onde o tempo passa, o sonho faz vergar a realidade, os milhares e milhares de quilómetros de continente e ilhas dobram-se, e as regiões mais distantes do País aproximam-se e ganham forma nos 30 hectares da Quinta da Atalaia. São os espaços das organizações regionais, erguidos a pulso por camaradas e amigos de cada distrito e região de Portugal para proporcionar ao visitante uma amostra das lutas e da cultura do País.

O tempo não pára, mas parece acalmar, também ele vergado perante o rosto visível de cada região. São as exposições, os murais, a decoração, as comidas, o artesanato, os debates, as tradições, os falares. Mas também os gestos de amizade e companheirismo esboçados em longos diálogos à mesa, lembrando os velhos tempos ou projectando futuros ainda incertos. Um petisco, um riso, um cantar, um carinho. Os amigos que já não se vê há meses ou anos e aqueles que se criam numa terra onde sonho e fraternidade casam na alegria de viver e de lutar.

Os espaços das regiões são isto mesmo,a casa comum de milhares de visitantes, onde o recôndito se torna próximo e a pressa dá lugar à eternidade de um olhar ou de uma conversa.

Respirar cultura, sempre viva e dinâmica
No Alentejo – que reúneas organizações regionais de Beja, Évora, Litoral Alentejano e Portalegre – não foi incomum sentir o cante a percorrer os pavilhões, enchendo-os de alegria e sentimento, fosse n’O Largo, espaço cultural por onde passaram vários grupos, fosse nos cantares improvisados dos visitantes. A cultura alentejana foi tema de um debate no espaço de Évora – a par de um arco florido em homenagem às Festas do Povo de Campo Maior.

A música também foi destaque emBragança e Braga. O primeiro espaço estava decorado com a partitura d’A Carvalhesa, símbolo da Festa apropriado a partir das carvalhesas típicas da região – mote para uma exposição e um debate. No segundo, as paredes estavam decoradas com coloridos desenhos de instrumentos tradicionais, que davam vida, entre outros, ao stand do artesanato tradicional.

Na Madeira, além do merecido sublinhado a iguarias como a poncha ou o bolo do caco, é de realçar a exposição sobre as intersecções entre os bordados da região e as tatuagens – que o visitante pôde ler nas filas para degustar os produtos da região.

Por seu lado, Aveiro recuperou a arte xávega, técnica de pesca tradicional com origem nas civilizações pré-clássicas e clássicas do Mar Mediterrâneo – e que foi mote da decoração do espaço e de uma exposição.

50 anos de Festa, 50 anos de Constituição
Para assinalar esta data redonda, o Portoverteu para as paredes dos seus pavilhões apelos ao cumprimento dos princípios constitucionais nascidos com Abril. O visitante pôde apreciar a rica gastronomia regional, com as francesinhas e tripas, enquanto observava gigantescos e coloridos murais sobre o direito à habitação, à saúde ou à cultura e a importância da propriedade pública na organização económica do País.

Não só de morcela e ananás viveu o espaço dos Açores. Nos 50 anos da Constituição, os açorianos celebram o cinquentenário da sua autonomia regional – conquista alcançada com a Revolução e plasmada na lei fundamental que foi tema de um debate e de uma exposição. Esta última abordou, ainda, alguns problemas sentidos na região, como a privatização da Sata. Semelhante celebração fizeram os madeirenses, com um mural pintado no seu espaço.

O 50.º do poder local democrático, conquista de Abril espelhada na Constituição, mereceu uma exposição no espaço alentejano, e um debate no pavilhão de Portalegre.

Lembrar o legado de quem se destacou
No espaço de Lisboa,as paredes foram decoradas com gigantescos, coloridos e diversificados murais, cada um evocando um poema diferente do poeta maior da Revolução, Ary dos Santos – como As Portas que Abril Abriu ou Soneto do Trabalho. Com uma programação cultural rica, que foi de gaitas de foles ao hip-hop, Lisboa contou com stands já habituais, como o “Sai Sempre”, o “Coleccionador” ou o “Alfarrabista”.

Também Santarém homenageou um destacado músico e intelectual comunista, Fernando Lopes-Graça, nascido em Tomar há 120 anos. Num espaço onde as paredes vermelhas gritavam, em letras brancas, versos de canções musicadas pelo homenageado, na pausa entre a carne de touro e a tigelada de Abrantes, o visitante pôde escutar algumas destas músicas nuns auscultadores espalhados pelo pavilhão.

Carlos Paredes e a sua ligação ao Norte foi tema patente numa exposição no espaço portuense, da autoria da Universidade Popular do Porto – depois de, em 2025, se ter comemorado os 100 anos do “homem dos mil dedos”.

Os Açores levaram à Festa a Marcha dos Amigos da Ribeira Seca, de S. Jorge, que marcharam no sábado em homenagem à professora Maria dos Santos Machado, conhecida por “Rubina”. A militante comunista açoriana esteve presa pelo fascismo e participou na actividade clandestina do PCP.

Mover-se contra o ataque aos transportes
Setúbal
clamou, em mensagens pintadas nas suas muitas paredes brancas, pela ligação rodoviária entre Seixal e Barreiro, pela inserção do transporte fluvial para Tróia no passe Navegante, contra a degradação do serviço ferroviário em Lisboa-Setúbal, pela integração da Fertagus na esfera pública e pela criação de uma ligação rodoferroviária entre Barreiro e Chelas. Estes temas foram abordados numa exposição e num debate, que deram vida a um espaço onde, sem sombra de dúvidas, o choco frito foi a iguaria principal.

À chegada ao pavilhão de Guarda e Castelo Branco, o visitante pôde ler as grandes letras maiúsculas que gritavam «Por uma ferrovia ao serviço das populações. Não ao encerramento de estações e linhas». Os problemas do sector na região, decorrentes de décadas de desinvestimento da política de direita, foram mote para um debate.

Também Beja e Lisboa debateram a mobilidade, desde a falta de transportes públicos, no primeiro caso, à intenção do Governo de privatizar as linhas mais rentáveis da CP, no segundo.

Formas de controlar a força indomável da natureza
Infelizmente, não foram desenvolvidas formas de controlar e conter os efeitos devastadores das intempéries que assolaram a região Centro no início do ano. Leiria levou este assunto à Festa.«Responder, resolver, prevenir», lia-se numa das paredes, decoradas com painéis sobre as tempestades e as soluções defendidas pelo PCP. No espaço, que acolheu um debate, os visitantes puderam adquirir telhas, contribuição solidária para ajudar a reconstruir o Centro de Trabalho da Marinha Grande.

Além dos pratos típicos, como a chanfana e a sopa à lavrador, Coimbra levou, numa exposição e num debate, a importância da Bacia Hidrográfica do Rio Mondego para a região, abordando diferentes aspectos – o impacto na paisagem, a defesa do ambiente, a obra hidroagrícola do Mondego, a luta pelo direito à água, entre outros.

Viana do Castelo, entre o artesanato e iguarias como o arroz de sarrabulho, dedicou uma grande parte do seu espaço à necessidade da defesa e valorização do Parque Natural de Peneda-Gerês – tanto num debate, como num colorido mural a representar os impactos dos incêndios a urgência da protecção ambiental.

A saúde e outras mil lutas no caminho de Abril
No Algarve, onde quase se conseguia sentir a brisa do mar no diversificado marisco servido, a luta em destaque era a «saúde para todos», como se podia ler num mural amarelo e vermelho, onde se denunciava a deliberada confusão entre “serviço” e “sistema” de saúde. Tanto na exposição como no debate, abordaram-se aspectos da saúde na região, como a fusão dos hospitais de Faro, Portimão e Lagos no Centro Hospitalar Universitário do Algarve. O estado da saúde no distrito foi igualmente abordado num debate em Aveiro.

As muitas lutas em Viana do Castelo – e a intervenção do Partido ao lado dos trabalhadores e das populações – também mereceram destaque com uma exposição no espaço da região.

Produzir a riqueza com direitos e dignidade
Com esse objectivo, oscomunistas vila-realenses e viseenses levaram à Festa as lutas das populações das respectivas regiões em torno da produção de alimentos e da defesa dos baldios, respectivamente.

Vila Real, com as suas doces cristas de galo e a posta barrosã, abordou a soberania alimentar e a produção da batata no Alto Tâmega com um debate e um poderoso mural a representar os campos do distrito e cestas com batatas. Viseu, que gastronomicamente ficou marcadopela posta arouquesa, comemorou os 50 anos da Lei dos Baldios, organizando um debate e desenhando nas suas paredes representações deste tipo de propriedade comunitária, onde se lia «Os baldios são do povo!».

Também Setúbal lembrou a necessidade da valorização do trabalho e dos trabalhadores, exigindo, nos seus murais, «Melhores salários, melhores pensões» e «35 horas para todos» – além de promover um debate sobre direitos laborais. Castelo Branco e Guarda sublinharam, numa exposição, a luta no sector têxtil.

 

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Colaboram nesta edição

Fotografia: Adérito Machado, Ana Isabel Martins, Ana Ferreira, Daniel Guerreiro, Diogo Frazão, Estela Carvalho, Fernando Monteiro, Fernando Teixeira, Fernando Zarcos, Inês Seixas, Jaime Carita, João Lopes, Jorge Cabral, Jorge Caria, José António Coelho, José Baguinho, José Carlos Pratas, Lucas Afonso, Luís Duarte Clara,...

Agradecimentos

A todas as entidades, públicas e privadas, que contribuíram para a realização da Festa do Avante!. À Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, à Associação de Colectividades do Concelho do Seixal e a muitas outras associações, colectividades e clubes desportivos. Ao NFIST – Núcleo de...