Música que derruba fronteiras
Rap, punk, rock, música de raiz portuguesa, canção de autor, ritmos tradicionais de diferentes geografias e electrónica cruzaram-se no Palco Paz ao longo dos três dias da Festa do Avante!. Mais do que uma sucessão de estilos, o programa construiu um espaço de encontro entre gerações, linguagens e culturas, onde a música serviu de ponte entre diferentes experiências.
Na sexta-feira, a abertura coube a Malabá, rapper português nascido na Aldeia de Paio Pires, que assinalou duas décadas de carreira. «Nosso Som», «Perigosa», «Sonho Português» e «Bang Bang» fizeram parte de um repertório que percorreu 20 anos de carreira. «Teimosia» encerrou a actuação, depois de o músico recordar, emocionado, que foi precisamente uma passagem pela Festa, com os Factos Reais, que o levou a lutar pelo sonho de ser rapper.
A noite mudou depois radicalmente de tom. Os Ex-Votos, veteranos do punk-rock nacional que encerraram a programação do dia, protagonizaram um dos momentos mais intensos, com vários momentos de uníssono com o público e a provocação que sempre marcou o grupo. Com 50 anos de percurso, os músicos estabeleceram também um paralelo entre a sua longevidade e a resistência da própria Festa.
Antes, porém, dois vencedores do Concurso de Novos Valores, promovido pela JCP, tinham mostrado a vitalidade da nova criação. O duo Fjords, assente na densidade do baixo e da bateria, cruzou experimentalismo e progressivo, revelando a força do metal nacional. Já Devassas, trio feminino de rock, juntou influências punk, grunge e metal a uma energia explosiva, abordando nas letras os demónios internos, a imprevisibilidade comportamental e a ânsia de liberdade.
Os Baleia Baleia Baleia, outro duo de músicos de grande capacidade, acrescentaram ao cartaz um punk-rock dançável, com letras marcadas pela crítica e pela sátira social e refrões que rapidamente ganharam o público.
Das raízes à criação contemporânea
No sábado, o Palco Paz abriu espaço à tradição e à cultura popular portuguesa. A tarde começou com o Grupo Canto Firme, de Tomar, que interpretou músicas de «Marchas, Danças e Canções», obra musical e poética de Fernando Lopes-Graça, editada em 1946 e apreendida pela PIDE no ano seguinte. «Jornada» e «Acordai» integraram o repertório.
Seguiu-se o Grupo Coral de São Brás do Regedouro, com as modas alentejanas belas, antes de o Grupo Coral do Sindicato da Indústria Mineira de Aljustrel protagonizar um dos momentos mais fortes do dia. O repertório, marcado pela memória e pela luta colectiva, incluiu o «Hino da Intersindical» e «Avante, Camarada». Mas foi «Grândola, Vila Morena» que transformou o concerto. A voz dos mineiros juntou-se à de centenas de pessoas e, durante alguns instantes, os cantores calaram-se para escutar o coro que vinha do público. Antes mesmo de subirem ao palco, os mineiros já tinham reunido à sua volta muitas outras pessoas enquanto afinavam as vozes. A cena remetia para as palavras de José Gomes Ferreira: «Nunca vi um alentejano a cantar sozinho com egoísmo de fonte».
As Adufeiras em Flôr, seis jovens intérpretes, deram continuidade a esta ligação entre herança e criação, com uma interpretação de «A Senhora do Almortão», na adaptação «Somos um», além de «Cantiga Bailada» e «Lusitanas».
O programa abriu depois espaço à canção de autor e à palavra. Impasse B percorreu, entre outros temas, «Vejam Bem», «Os Vampiros», de José Afonso, e «Foi por ela», de Fausto Bordalo Dias, numa actuação onde a palavra e a poesia assumiu também lugar de destaque.
A noite ganhou novamente ritmo com os Fala Povo Fala, banda de figurino irreverente que cruza punk rock e música tradicional portuguesa e transforma a crítica ao sistema e às injustiças sociais em matéria para cantar e dançar. O público teve um papel central, com os músicos a valorizarem a proximidade e a participação colectiva.
A seguir, Piropop levou o terreiro para a pista de dança, com um DJ set construído a partir de conhecidos temas da música ligeira e comercial, numa proposta assumidamente descontraída e festiva.
Pelo meio da noite, a tradição ganhou novas formas. A Roda Ibérica, projecto colectivo de percussão centrado nos adufes, manteve-se mais próxima das raízes, enquanto os Cabra Çega apostaram numa combinação mais arrojada, juntando gaita-de-foles, bombo e caixa ao didgeridoo australiano. Ambos partiram de temas recolhidos da tradição etnográfica, em particular ligados à comunidade rural e aos cantos do trabalho, mas também à folia, à reinação e aos relatos amorosos. A resposta do público foi imediata, sobretudo no segundo caso, com o terreiro transformado numa verdadeira festa.
Um mundo dentro de um palco
O domingo reforçou a dimensão internacional do programa. Cores do Vietname apresentou os sons dos instrumentos tradicionais do país, num momento de descoberta e aproximação entre culturas. A actuação mostrou, uma vez mais, a capacidade da música para criar laços de amizade e conhecimento entre povos.
A tarde prosseguiu com donaranha, vencedores do Concurso de Novos Valores da JCP, que aproveitaram o final da actuação para apresentar dois novos temas.
Com Espiral, as referências deslocaram-se para os bailes folk. As sonoridades celtas encontraram repertórios tradicionais da Irlanda, Escócia, País de Gales e Portugal. As Xoteiras aprofundaram a vertente dançável, com «Canta, minha companheira, canta» a afirmar a solidariedade e a cumplicidade entre mulheres.
À medida que a tarde avançava, os G-Combo trouxeram ritmos latinos, cumbia, dub e sonoridades tropicais. Cuba, Colômbia, Jamaica e Espanha encontraram-se numa proposta marcada pelo movimento e pela festa, com ecos de Manu Chao e uma forte mensagem social.
Já Moro Acid conduziu o palco para a electrónica experimental, aproximando o acid de referências da Europa Mediterrânica, do Magrebe, do Médio Oriente, da Turquia e do Irão, numa pesquisa sonora que aproximou geografias distantes.
O encerramento pertenceu a Tropicaustica + O Gringo Sou Eu?, que juntaram sonoridades urbanas e tradicionais de resistência. A intervenção musical trouxe para primeiro plano questões como o crescimento do fascismo em Portugal e no mundo, que leva à restrição da liberdade de expressão e limitação de direitos, ou a valorização da mulher e o combate ao machismo.
Ao longo dos três dias, o Palco Paz confirmou assim o seu nome e a sua vocação: aproximar mundos diferentes através da música, sem fronteiras de género, geração ou origem.




