Ampla maioria na ONU solidariza-se com Cuba

Por 136 votos a favor, 9 contra e 30 abstenções, a Assembleia Geral das Nações Unidas aceitou no passado dia 7 realizar o debate proposto por Cuba sobre a necessidade de pôr fim ao bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos EUA.

«Cuba não é uma ameaça. O bloqueio, sim. O país ameaçado é Cuba»

O debate urgente sobre o bloqueio a Cuba, aprovado por uma ampla maioria de votos na Assembleia Geral das Nações Unidas, evidencia o isolamento dos EUA apesar dos seus esforços e chantagens para silenciar a verdade.

Na sua intervenção, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, desmontou as falsidades norte-americanas que negam as consequências económicas provocadas pelo bloqueio e demonstrou com números e testemunhos o carácter criminoso de uma política que qualificou como «crime de lesa-humanidade em plena execução».

O ministro cubano denunciou que os EUA conduzem «uma guerra multidimensional, não convencional, que dura há quase sete décadas» contra Cuba e qualificou o cerco energético como «equivalente a um bloqueio naval, que é um acto de guerra».

Os prejuízos do bloqueio entre Março de 2025 e Fevereiro de 2026 ascenderam a mais de oito mil milhões de dólares, informou, alertando para o custo humanitário: a taxa de mortalidade infantil aumentou de 4,0 para 9,9 por mil nascidos vivos, o que significa a morte evitável de 1780 recém-nascidos. «O bloqueio asfixia e mata de maneira silenciosa», denunciou o ministro cubano.

Bruno Rodríguez afirmou ainda que «Cuba não é uma ameaça. O bloqueio, sim. O país ameaçado é Cuba. Mas somos uma nação comprometida e defensora da paz, do direito internacional, do multilateralismo, da verdade e da justiça».

Apenas Argentina, Costa Rica, Israel, Marrocos, República Checa, Macedónia do Norte, Paraguai, Ucrânia e EUA votaram contra a realização do debate. A maioria dos Estados-membros resistiu às fortes pressões exercidas pelos EUA para tentar impedir que se desse voz às justas denúncias de Cuba.

Na Organização das Nações Unidas, o apoio do Grupo dos 77+China, do Movimento dos Países Não-Alinhados, da Associação de Nações do Sudeste Asiático, do Grupo Africano e da Comunidade das Caraíbas, assim como o de dezenas de países, confirmou a condenação internacional do bloqueio e a rejeição das ameaças de agressão militar dos EUA contra Cuba.

Solidariedade em Portugal...

Em Portugal, a solidariedade com Cuba deu o mote a uma sessão realizada na segunda-feira, 13, na Casa do Alentejo em Lisboa, promovida pela Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC). João Terreiro, vice-presidente da associação, sublinhou o «momento particularmente grave» que se vive em Cuba, face ao novo patamar atingido pela agressão norte-americana: «Ao bloqueio económico, comercial e financeiro, criminoso e ilegal imposto há mais de seis décadas, juntam-se novas medidas de estrangulamento económico, perseguição financeira, intimidação de empresas, bancos, navios e países terceiros, numa tentativa deliberada de asfixiar o povo cubano».

Assim, salientou, «não estamos perante um conflito bilateral, estamos perante uma política de punição colectiva contra um povo inteiro, que procura impedir a aquisição de medicamentos, combustível, equipamentos médicos, alimentos, matérias-primas. Uma política que pretende provocar o desespero, a fome, a instabilidade social e, finalmente, a “mudança de regime” desejada por Washington».

A AAPC, destacou João Terreiro, transforma a solidariedade «em acção concreta: ao longo destes anos, organizámos dezenas de conferências, debates, manifestações, iniciativas culturais e acções de esclarecimento». E fez mais: organizou campanhas nacionais de solidariedade, recolhendo toneladas de medicamentos, material hospitalar, produtos de higiene, alimentos e equipamentos destinados ao povo cubano. Nos últimos meses conseguimos enviar dois contentores, cerca de sete toneladas cada um, de ajuda humanitária e continuamos a preparar novos envios».

reconhecida em Cuba

Na sessão de segunda-feira, a Primeira Secretária da Embaixada, Clara Cordero, leu o decreto da Presidência da República de Cuba de atribuição da “Medalha da Amizade” a 17 personalidades de todo mundo, onde se incluem Augusto Fidalgo, presidente da AAPC entre 2014 e 2025, e Eduardo Fonseca, membro da direcção da AAPC durante muitos anos. Esta medalha, entregue pelo Embaixador de Cuba em Portugal aos dois dirigentes da AAPC, foi concedida por proposta do Instituto Cubano de Amizade com os Povos, «em reconhecimento do apoio, fortalecimento e aprofundamento dos vínculos com o povo cubano fundamentados na irmandade e solidariedade e as excelentes relações de amizade com Cuba, na participação em campanhas em defesa da Revolução e na luta contra o bloqueio, assim como o respeito, a admiração e gratidão demonstrada para com a Revolução cubana».

 

Soberania «não é negociável»

O Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, afirmou que está disposto ao diálogo com os EUA, mas reiterou que a soberania, a autodeterminação e o sistema político da República de Cuba não são negociáveis.

Numa entrevista divulgada pelo Brasil de Fato, o dirigente destacou que a Revolução cubana sempre defendeu a possibilidade de manter uma relação civilizada com os EUA e de resolver diferenças bilaterais mediante o diálogo, mas «o nosso sistema político, a nossa soberania e a nossa autodeterminação não são negociáveis, nem na mesa de conversações, que têm que ser em condições de igualdade», afirmou Miguel Díaz-Canel.

O Presidente cubano afirmou ainda que Cuba não é «uma nação em disputa, não somos uma colónia, nem somos uma possessão para que alguém se aproprie de nós». E reiterou: «Cuba é um país soberano, independente e livre, que tomou como decisão da maioria «um processo de construção socialista no meio de condições muito adversas».

Miguel Díaz-Canel referiu-se também à situação que atravessa Cuba, assegurando que o povo cubano mantém a sua capacidade de resistência face às dificuldades. «Vocês percebem como reage o povo cubano. Não há apagão que apague a nossa vontade, nem escassez que destrua a nossa esperança», enfatizou. E acrescentou que, a nível comunitário, a população organiza-se para assegurar o funcionamento dos serviços essenciais. «Não há transporte, mas todos os dias os médicos, as enfermeiras e os demais profissionais da saúde chegam aos seus postos de trabalho e, ainda sem luz, atendem os seus doentes», exemplificou. «Os professores dão aulas ainda sem luz, os camponeses semeiam e produzem alimentos mesmo sem combustível. Essa é a imagem desta resistência heróica e criativa do povo cubano», afirmou.

 

 



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