O sistema e o silenciamento
O persistente silenciamento mediático da intervenção do PCP costumava ter momentos de atenuação. Momentos que, em função da sua centralidade na vida política ou por revelarem de forma por demais evidente a singularidade do PCP no País, tornavam tão escandaloso o silenciamento que acabavam por representar breves interrupções no manto de discriminação que marca as opções editoriais da comunicação social dominante. Nos últimos dias tivemos duas ocasiões que se prestavam a um interlúdio nesse padrão: um discurso do Presidente da República eleito na sua tomada de posse, com as reacções de todos os partidos com representação parlamentar, e o 105.º aniversário do PCP.
O primeiro caso é singular, pelo valor noticioso, afinal trata-se da tomada de posse de um novo chefe de Estado, apenas o sexto em 50 anos, cujas atribuições constitucionais justificam plenamente uma particular atenção ao que disse e às várias reacções, a começar pelos partidos políticos; mas também por razões muito práticas, já que todos os principais órgãos de comunicação social montaram operações especiais e empenharam meios relevantes para as mesmas. Aliás, foi o assunto que dominou o dia, em destaque nas televisões e rádios logo desde a manhã, com presença de destaque nos jornais ao longo de vários dias e com acompanhamento ao minuto nos meios online.
Face a tudo isto, a opção da CNN de sair da emissão em directo na Assembleia da República imediatamente antes da reacção do Secretário-Geral do PCP não tem outra explicação que uma opção deliberada de exclusão. As declarações dos dirigentes partidários foram feitas todas no mesmo local, a câmara que os emitiu para a CNN não saiu do sítio, mas houve uma decisão de cortar ali: a partir do PCP não passou mais nada. Não por uma bombástica notícia de última hora obrigar à interrupção da normalidade televisiva, mas para seguir para os omnipresentes comentadores residentes da estação.
Se nas últimas eleições cada comentador dispunha de mais tempo de emissão do que cada candidato em cada um dos debates, agora inaugurou-se uma nova modalidade: a simples substituição das declarações de alguns intervenientes políticos. Isto não é mais que substituir informação por opinião com curadoria editorial dos grupos económicos. Por outras palavras, deixar de dar notícias para dar espaço à propaganda.
Já a descrição do silenciamento mediático a que foi sujeito o comício do 105.º aniversário do PCP, em Lisboa, é bem mais fácil de descrever. As televisões fizeram aquilo que têm feito com as dezenas de iniciativas do PCP desde o início do ano, de norte a sul do País, de grandes comícios, sessões, jantares, audições, contactos com trabalhadores ou populações: como não é para passar nada nem vale a pena marcarem presença. Tudo isto enquanto os do costume continuam a ter as portas dos estúdios de televisão sempre abertos para si. Só nos últimos dias, o chefe da agremiação que se diz contra o sistema teve três entrevistas em directo nas estações televisivas detidas pelos senhores do sistema.




