O dono da bola
Todos quantos jogaram à bola na rua, com pedras ou mochilas a fazerem de balizas improvisadas, sabem do que falo: o miúdo que mandava no jogo era o dono da bola. Era ele que fazia ou interpretava as regras, decidia quando era ou não penálti, sabia sempre se era golo ou se a bola passara “por cima da barra” e quando lhe dava jeito transformava um 5 a 0 a desfavor da sua equipa num “quem marcar ganha”. E ai de alguém que o contrariasse: ia-se logo embora, levando com ele a bola, e lá se acabava a jogatana…
Vem esta memória a propósito de um conceito que há uns anos, não muitos, entrou de rompante no léxico político e mediático dominante: a “ordem mundial baseada em regras”. De um dia para o outro, sem grandes explicações, esta expressão começou a ser utilizada diariamente – por dirigentes políticos ou candidatos a tal, maiorais da finança, jornalistas, comentadores e analistas –, ao mesmo tempo que desapareciam outras, mais consolidadas e perceptíveis, como “direito internacional” ou até mesmo “Carta das Nações Unidas”…
Mas afinal que ordem é esta? De que regras falam? Nunca nos foi dito claramente. Apenas soubemos que tem vindo a ser “abalada” nos últimos tempos e que se encontra hoje “seriamente ameaçada”. Por quem? Pela Rússia, por causa da Ucrânia; pela China, que desafia as regras comerciais estabelecidas; e, atrevem-se alguns, pela actual administração norte-americana, que por vezes se volta contra os seus tradicionais amigos do Velho Continente… Pelo menos é isso que nos dizem.
Porém, e como diz o povo (esse sábio!), “zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades” e fomos ficando mais elucidados sobre a natureza desta “ordem” e destas “regras”. Uma e outras, afinal, nasceram do desaparecimento da União Soviética e do campo socialista europeu, e do profundo desequilíbrio que provocou: a “ordem” é a hegemonia norte-americana e as “regras” as que o imperialismo impõe – a todos, sejam inimigos ou “aliados”.
Esta “ordem” fez-se do alargamento da NATO e da proliferação de bases militares, sistemas de artilharia e frotas navais um pouco por todo o mundo; do cerco militar à Rússia, primeiro, e à China, depois; do desmantelamento da Jugoslávia, da destruição do Iraque, do Afeganistão, da Líbia e da Síria, do genocídio do povo palestiniano e da agressão ao Irão; da imposição de criminosos bloqueios e sanções a povos inteiros e de tratados comerciais desiguais e lesivos para as economias dos países mais frágeis e cada vez mais dependentes; da concentração da riqueza e do brutal aumento das desigualdades. Tudo isto sem que se tenha ouvido qualquer indignação por parte das democráticas consciências dos dirigentes do lado de cá do Atlântico, hoje tão sensíveis e sempre tão submissos – ou não fossem da equipa do dono da bola.
Mas o jogo parece estar a mudar e novas regras virão.




