Sexo, mentiras e redes

Margarida Botelho

Vale a pena perder uns minutos com os argumentos que CDS, Chega e IL usaram contra o projecto do PSD para restringir o acesso dos jovens com menos de 16 anos a certas redes sociais.

«Não os querem no Instagram nem no Tiktok, querem dar-lhes o lixo que lhes deram durante 50 anos», afirmou Ventura, referindo-se aos órgãos de comunicação social e à televisão. Outros deputados do Chega já se tinham referido à “doutrinação” feita nas escolas e na RTP2. A ideia de que a verdade está apenas e só nas redes sociais é central na actuação da extrema-direita em todo mundo, de Bolsonaro a Trump. Gente desarmada que só consome mentiras é o que se quer: em quatro semanas de campanha de presidenciais, o Chega foi responsável por 85,7% dos casos de desinformação detectados, que tiveram mais de sete milhões de visualizações. Já tinha sido assim nas legislativas, com 81% de notícias falsas com origem no Chega. Não se ia agora privar os miúdos desta riqueza, não é?

A IL fala num «modelo de vigilância massiva», o CDS num Estado que se «substitui aos pais». Indiferentes aos efeitos que o abuso de ecrãs lúdicos tem nas crianças e nos jovens, ao acesso sem filtros a conteúdos violentos, sexualizados, racistas, defendem acima de tudo o modelo de negócio das gigantescas multinacionais da tecnologia, que manipulam e vendem a atenção dos consumidores, mesmo que sejam crianças e adolescentes.

A proposta do PSD tem muitas fragilidades e lacunas, como o PCP apontou e o Avante! aborda noutras páginas. Mas deixar a vida, a saúde e a inteligência de crianças, adolescentes e jovens à mercê dos interesses de grandes grupos económicos é criminoso. Garantir que têm tempo para crescer em liberdade, que aprendem com sentido crítico e humanismo, de forma integral, é uma questão central do nosso tempo.

 



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