Munique na rota da confrontação
Não há divergências no ataque ao Sul Global
A visão de desconcerto voltou a ser a tónica do lançamento da recém-realizada Conferência de Segurança de Munique. Na senda do neologismo “Desocidentalização”, introduzido na edição de 2020 para descrever o declínio ocidental e a falta de sintonia transatlântica, o relatório do encontro deste ano, intitulado “Em destruição”, elevou o alarme: «A ordem internacional pós-1945 liderada pelos EUA está agora em processo de destruição». Trump figura como grande “demolidor” e as políticas de Washington o bulldozer que destrói o “mundo baseado em regras” – a narrativa que não passou de uma mistificação para obscurecer o ataque concertado do imperialismo aos direitos dos povos e às bases do direito internacional. Na sua intervenção, o chanceler alemão, Merz, aproveitou a maré para puxar pelo federalismo, em implícita antevisão do ressurgimento da Alemanha como grande potência militar. Qual a raiz da ansiedade da Alemanha e da Velha Europa neste tempo convulso, de mudança tectónica? A redescoberta tardia, em pano de fundo da agravada crise estrutural capitalista, de que na mesa da rapina global poderão, também, constar do menu? A difícil resignação à posição de “vassalos (in)felizes”? Ora, foi para dourar a pílula e desdramatizar a atmosfera pesada de colisão de interesses que, depois do choque glaciar da intervenção, em 2025, do vice-presidente, JD Vance, a Casa Branca enviou a Munique Marco Rubio em missão “apaziguadora”. A exibição da cenoura bastou para levantar o aplauso da audiência… Afinal, existe um corredor para a concertação, para lá da espuma da retórica que encheu Munique – e da ameaçadora teia de rivalidade. Entre aliados-vassalos desavindos, Munique iluminou o denominador comum do militarismo e da política insana de confrontação e guerra. Os consortes com assento no decadente G7 não têm discordâncias de fundo quanto à investida exploradora contra o Sul Global, o ataque aos BRICS e as sanções, agressões e operações dos EUA de mudança de regime na Venezuela, Cuba e Irão (o filho do Xá participou na conferência), nem contra o massacre genocida de Israel em Gaza e o apoio fundamental ao regime sionista na estratégia de desestabilização e reconfiguração do Médio Oriente. O hiper-reaccionário discurso neocolonialista de Rubio soa quase a música celestial aos ouvidos dos aliados da NATO…, mas, atenção: Washington é o suserano.
Os EUA foram a Munique instar à “força colectiva”, económica e militar, para conter a China. Um senador presente traçou o diagnóstico: «a China tem capacidade industrial, energia, dados e escala para vencer a corrida em tecnologias de ponta (…) com potencial uso militar». Contudo, Berlim transfere capacidade industrial para a China, após o atentado contra o Nord Stream e o fim do gás russo mais barato. Em 2025, Pequim suplantou os EUA, recuperando a liderança na relação comercial com a Alemanha.
A aposta disruptiva belicista – Trump anuncia um aumento de 50% das verbas do Pentágono para 2027 – é uma corrida contra o tempo, exigindo que os “aliados”, cada vez mais, suportem uma dívida insustentável. Para Londres e a UE a fixação é “derrotar” a Rússia e manter a guerra na Ucrânia, em que os EUA se tentam, falsamente, posicionar como mero mediador. Mais consensuais são os planos da NATO para incrementar a pirataria contra a navegação civil russa no Báltico e Ártico...




