Riscos de branqueamento

Jorge Cordeiro

A divulgação de 250 figuras da direita de apoio a António José Seguro deixou não poucos empolgados sobre o que ali descortinam de fervoroso patriotismo do que designam de “direita democrática”. Correndo o risco de ser visto como desmancha-prazeres neste coro laudatório, e concedendo algum significado à iniciativa mesmo que movido por um posicionamento tipo «antes assim que pior», manda a avisada prudência alertar que a opção traduzirá, em muitos dos casos, um distanciamento mais ditado pelo estilo do que pela substância.

Percebe-se que mesmo para figuras maiores do que de pior e mais aberrantemente antidemocrático protagonizaram nestas décadas de política de direita – de Cavaco Silva a Paulo Portas – se não queiram ver identificados, não tanto pelas concepções políticas, mas sobretudo por padrões comportamentais arruaceiros do candidato Ventura. O que já é abusivo é atribuir a estes posicionamentos uma genuína dimensão democrática, um acto capaz de por si só ilibar todo um percurso preenchido pelo objectivo de impor pela sua acção retrocesso social, liquidação de direitos, institucionalização de desigualdades e injustiças. Ou ainda, de mais largo alcance, como faz um articulista e responsável do Público, um certo amalgamento entre direita e esquerda articulada com a rejeição caricaturada de projectos e concepções fascistas num claro exercício de desvalorização dos perigos do ascenso da extrema-direita.

Diga-se com clareza que há força na democracia bastante para lhe dar combate, mas isso não significa que não haja quem o projecte e ambicione impor. Caricaturas do tipo a que o autor do Público recorre para sustentar que o fascismo é coisa enterrada, a pretexto de que esse tempo das “camisas negras e castanhas” ou dos “desfiles coreografados” é passado só contribuem para lhe dar espaço. Como se sabe, fascismo e nazismo não são sinónimos mas sim expressões de uma mesma ideologia que, suportada no capitalismo, encontra nas circunstâncias concretas as formas de poder para impor esse sistema. E devia saber que a assumpção de concepções reaccionárias e fascizantes se podem apresentar de vestes bem distintas.

Olhe para os EUA ou Argentina e lá verá a germinar, se os povos respectivos o permitirem, as sementes de concepções fascizantes. Não necessariamente com as SS dos meados do século passado, mas com a ICE do século XXI.



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