A catástrofe

Manuel Gouveia

Se afastarmos a poeira dos dias, e olharmos para a verdadeira mecânica de cada processo, na falta de resposta a cada catástrofe encontramos os mesmos elementos estruturais que na falta de resposta mais geral às necessidades básicas do nosso povo.

Não é fácil fazê-lo. Não é fácil estudar seja o que for rodeado de grunhos aos berros: “50 anos de socialismo”, “é só corrupção”, “venha o salazar”. Já para não falar do irritante ruído das bolas de ping-pong entre os vários lados do consenso neoliberal, entre os vários executantes da política de direita: “PING, atrasaste-te na resposta”, “PONG, vocês estiveram no governo e não resolveram nada”, “PING, deixámos tudo planeado”, “PONG, nada estava estudado”, “PING, sois uns incompetentes”, “PONG, os incompetentes são vocês”...

Mas façamos um esforço. Olhemos para a catástrofe em curso e que se vai agravar nos próximos dias com a abertura das barragens e o continuar da chuva. Porque não respondem a EDP, a sua E-Redes, a REN ou as várias Telecom? Com as equipas fixas reduzidas ao mínimo, baseiam a sua capacidade de resposta na subcontratação. Pagando salários miseráveis, promovem a fuga de trabalhadores especializados para a emigração quando não os organizam para irem trabalhar para elas em chorudos contratos no estrangeiro. Tudo subordinado ao lucro. Seria defenestrado o CEO que chegasse junto dos seus accionistas e lhes anunciasse ter aumentado os custos em 300 milhões para garantir uma melhor resposta operacional. O que importa é chegar ao final de 2026 atingindo novamente lucros de centenas de milhões de euros como atingiram em 2025. E já estão a tratar é de abocanhar a maioria dos apoios agora anunciados pelo Governo como se fossem dirigidos ao povo português.

Entre as medidas que não tomaram antes e aquelas que não querem tomar agora, entre a incapacidade estrutural de responder criada pelo seu modelo organizacional, a liberalização dos sectores estratégicos é um desastre que agrava todos os desastres. E ao sector público é imposto exactamente o mesmo modelo. Errado. Criminoso.

 



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