Lições da tempestade
Tal como como já tinha acontecido com a pandemia, ou mais recentemente com o chamado “apagão”, a tragédia do Elevador da Glória ou os grandes incêndios florestais do último ano, também agora ficou evidente a incapacidade do País responder de uma forma efectiva a situações com o grau de destruição provocado pela tempestade Kristin.
A realidade é demasiado teimosa para ficar escondida debaixo da cartilha neoliberal e todas as supostas virtudes do mercado, do individualismo, das privatizações, dos excedentes orçamentais, da diabolização das receitas públicas (incluindo impostos), do emagrecimento do Estado até ao osso, caem como um baralho de cartas quando se trata de garantir a resposta a uma tragédia desta dimensão.
O controlo público dos sectores estratégicos, como a electricidade ou as telecomunicações, não impede fenómenos extremos (climatéricos ou outros), mas quando tudo depende de grupos económicos privados cujo principal objectivo é o lucro, percebemos porque é que ainda estão centenas de milhares de pessoas sem electricidade (e assim vão continuar, a julgar pelo que diz a E-Redes) e sem telecomunicações, ou porque é que o SIRESP – entregue a uma PPP – falhou outra vez. Percebemos, seja na prevenção seja na reacção imediata a este tipo de acontecimentos, a falta que fazem os serviços públicos, o planeamento, a existência de equipas estáveis e permanentes nas estruturas da administração central e local e os impactos de anos e anos de fragilização e desarticulação de capacidades do Estado, seja em nome das imposições da troica ou do euro.
Percebemos que vão ser necessários milhares de milhões de euros para garantir salários e rendimentos, recuperar habitações, capacidade produtiva, equipamentos e infra-estruturas, e que muitos dos que aplaudiram a descida do IRC, serão os primeiros a reclamar esses apoios ao Estado. Percebemos porque é que o País não pode deixar nas mãos do mercado os preços dos materiais de construção, da energia ou da água, sujeitando-se à especulação como a que se verificou por exemplo na pandemia.
Para esconder responsabilidade e prosseguir com a política de direita, dirão mil vezes que “o Estado falhou”. Mas o que falhou, e falha todos os dias na vida do nosso povo, é a política que serve os interesses de uma minoria rica e poderosa e com a qual temos que romper.




