A Revolução de Outubro e a paz

Albano Nunes

A URSS faz falta ao mundo

Ao comemorar-se mais um aniversário dos “Dez dias que abalaram o mundo”, num contexto internacional geralmente reconhecido como o mais perigoso para os destinos da Humanidade desde o fim da II Guerra Mundial, é oportuno lembrar que a Revolução de Outubro, a primeira tentativa de reestruturar a sociedade no interesse das classes e camadas sociais exploradas e oprimidas, é inseparável da luta contra a guerra imperialista e pela paz. Se o primeiro decreto da Revolução foi o “Decreto da Paz” é porque a saída da Rússia da guerra, que o governo menchevique de Kerensky recusava, era a principal e a mais urgente exigência das massas trabalhadoras, mas também porque os valores da paz e da amizade entre os povos são intrínsecos do ideal e do projecto comunista, como os setenta e quatro anos de poder soviético mostraram.

E lembrar também que, para conseguir o acordo de paz separado com a Alemanha, o governo soviético para salvaguardar o poder operário e camponês foi forçado a dramáticas cedências territoriais em Brest-Litovsk, aliás temporárias. E que, sempre sob a ameaça do imperialismo – Churchill pretendia “matar o menino no berço” –, a URSS nunca deixou de se bater por relações internacionais de segurança, paz e cooperação, pelo desarmamento, pela coexistência pacífica entre regimes sociais diferentes. A sua decisiva contribuição para a Vitória sobre o nazi-fascismo é expressão maior da natureza pacífica humanista da URSS, entretanto forçada a sacrificar grandes recursos para cuidar da sua defesa. Os hediondos crimes de Hiroxima e Nagasáqui, o discurso de Churchill de 1947 em Fulton sobre “a cortina de ferro”, a criação da NATO em 1949 e tudo quanto se lhe seguiu na obsessiva estratégia de “contenção do comunismo”, impuseram à URSS e ao campo socialista extraordinários esforços até conseguir alcançar a paridade militar estratégica que conteve os impulsos mais agressivos do imperialismo e impediu uma nova guerra de catastróficas proporções.

Hoje, 108 anos depois da Revolução de Outubro, é uma evidência que o Estado socialista cujas realizações e política externa de paz e solidariedade internacionalista marcaram as grandes transformações do século XX, faz falta ao mundo. Com o fim da URSS desapareceu a mais poderosa barreira ao imperialismo cuja natureza exploradora e agressiva está hoje a manifestar-se de modo cada vez mais arrogante e perigoso com os EUA e as outras potências da NATO e da UE a promoverem a militarização da economia e abertos preparativos de guerra, a par do ataque a direitos e liberdades fundamentais e da normalização de valores e forças reaccionárias e fascistas. Uma situação em que a luta pela paz e a solidariedade internacionalista se constitui como componente indispensável da luta dos povos de todo o mundo em defesa dos seus interesses e aspirações mais sentidas e da sua soberania. Uma situação que, apelando à mais ampla unidade na acção, “todos juntos pela paz”, não deve esquecer as lições da história.

E que, lembrando o vigoroso combate de Lénine aos dirigentes da II Internacional que alinharam com a burguesia dos respectivos países no desencadeamento da carnificina da guerra de 1914/18, alerta para o gravíssimo envolvimento da social-democracia na perigosa situação actual, como no caso da Alemanha.

 



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