Medos

Anabela Fino

Tenham medo. Tenham muito medo. Tenham medo dos drones russos, dos submarinos russos, do petróleo russo, do gás russo, dos compositores russos, dos escritores russos. Tenham medo das balalaicas, do zé dos bigodes, do Lenine, do Lavrov, do Putin. Tenham medo de novos e velhos, de ricos e pobres, do passado e do presente, sobretudo do futuro. Tenham medo das matrioskas, símbolo do poder oculto dos russos, de barriga sempre cheia de novas e mais condensadas ameaças. Nunca se sabe onde se encaixa um bolchevique.

Tenham medo, tenham muito medo dos chineses. São muitos e incansáveis. Trabalham quando estamos a dormir. Diz-se que roubam as ideias, mas parece que estão a mudar o mundo. Desconfia-se de que para além de mãos têm cabeça. E pensam!

Tenham medo, tenham muito medo dos imigrantes. Consta que roubam a cultura, a nacionalidade, a identidade, a casa, o trabalho, o SNS… a coberto dos descontos para a Segurança Social. E têm filhos. São novos num país de velhos. Um atrevimento.

Tenham medo das burcas, se virem alguma. Tenham medo dos muçulmanos, que usam batina, como os padres católicos, mas fora das igrejas e do sacerdócio.

Tenham medo, tenham muito medo, dos ‘terroristas’, das alterações climáticas, dos ataques cibernéticos, do pensamento alternativo, dos sindicatos, dos comunistas, sobretudo dos comunistas, que insistem em não participar no espectáculo do medo e em denunciar as desigualdades sociais, a precariedade laboral, a degradação dos direitos civis, o agravamento da exploração capitalista.

Nas rádios, nos jornais, nas televisões, nas redes sociais a tónica é constante: para a guerra é que é o caminho. Compre-se mais caro aos americanos o que antes se comprava mais barato aos russos; gaste-se em armas (americanas) o que se devia gastar em saúde ou habitação; arreganhe-se os dentes à China como se o Império do Meio fosse um tigre de papel e não o maior credor bilateral do mundo e o maior credor público em relação aos países do Sul Global, com empréstimos que atingem já um volume mais elevado do que a soma dos empréstimos concedidos por FMI, Banco Mundial e Clube de Paris; faça-se de conta que tudo vai bem na portugalândia e que os milhões para material bélico em segunda mão são peanuts no país em que, em 2024, os cinco maiores bancos lucraram mais de 4800 milhões de euros, a grande distribuição encaixou quase 900 milhões e os principais grupos da Energia mais de 1900 milhões.

Haja medo, muito medo, para esquecer que nos últimos três anos os bens alimentares de primeira necessidade, da carne ao leite, do pão aos legumes, aumentaram mais de 30%; as rendas cerca de 20%; a água, electricidade, gás e combustíveis 21,7%; as despesas com crédito à habitação cerca de 50%.

Fiel a si próprio, o PS, que em 2011 viabilizou o OE de Passos Coelho com a “abstenção violenta” do hoje candidato presidencial António José Seguro, vai viabilizar o OE de Montenegro com a “abstenção exigente” de José Luís Carneiro. Nem de burca conseguiam disfarçar. Isso sim, mete medo.

 



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