Outras guerras

Gustavo Carneiro

A revista científica britânica The Lancet, com mais de dois séculos, é uma das mais prestigiadas do mundo na área da Medicina. Recentemente publicou um estudo sobre a relação entre as sanções impostas a diversos países do mundo, entre 1971 e 2021, e o aumento das taxas de mortalidade. Das várias conclusões que retira (já lá vamos), uma é particularmente chocante: as sanções mataram mais do que as guerras, acima de meio milhão de pessoas ao ano, em média.

Menos surpreendente será a constatação, comprovada pelos autores, de que os grupos mais vulneráveis aos efeitos das sanções – como das guerras, aliás – são os idosos e as crianças mais pequenas. Ainda assim, os dados são aterradores: o maior número de mortes verificou-se em bebés nos primeiros 12 meses de vida e 51% das vítimas mortais tinham cinco anos ou menos. O estudo sublinha em particular os impactos dramáticos na economia dos países afectados, sobretudo nos sistemas públicos de saúde: entre os mais graves contam-se quebras significativas do investimento no sector, obstáculos à importação de bens e serviços essenciais e restrições à actuação das organizações humanitárias.

E há mais. Estabelece-se uma relação directa entre o aumento das mortes e o prolongamento do período de aplicação de sanções: quanto mais tempo duram as restrições, mais cresce a taxa de mortalidade. E aponta-se as sanções unilaterais norte-americanas como as mais mortíferas (são hoje dezenas os países a sofrê-las, quase todos da América Latina, Ásia, África e Médio Oriente). Os investigadores explicam porquê: pelo carácter extraterritorial de muitas delas, incidindo sobre entidades terceiras e, assim, amplificando os seus efeitos económicos e humanos; por ser o dólar a moeda de referência nas transacções bancárias internacionais.

Mas o motivo principal é outro e o artigo não o esconde: as sanções económicas unilaterais dos EUA visam propositadamente as condições de vida (e a própria vida) das populações, pois o seu objectivo é precisamente o de facilitar operações de “mudança de regime” ou alterações significativas nas opções políticas dos Estados sancionados num sentido favorável aos interesses do imperialismo. Dizem-no os investigadores, e disseram-no também dirigentes dos EUA ao longo dos anos: da economia chilena a “guinchar de dor”, que abriu caminho ao fascismo neoliberal de Pinochet, à certeza de que “sim, valeu a pena” condenar à morte 500 mil crianças iraquianas, já se disse de tudo. Os “direitos humanos”, a “democracia”, o “terrorismo” ou as “armas de destruição massiva” não passam de conversa de chacha.

Os autores do estudo, com base nas constatações que retiram, defendem a suspensão da aplicação de sanções unilaterais. Nós vamos mais longe: enfrente-se, sim, o imperialismo capaz de tais crimes.

 



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