Convergência e acção consequentes

Jorge Cordeiro (Membro do Secretariado e da Comissão Política)

Não se junta forças em nome da esquerda para cobrir práticas, opções e política de direita

“O movimento é tudo, o objectivo final não é nada” será provavelmente um dos mais persistentes traços que acompanham as expressões que o oportunismo político enverga, contaminando o movimento e a luta política dos trabalhadores desde que estes passaram a inscrever esse sentido mais decisivo de transformação social e superação do capitalismo. Em sentido político e ideológico, um contaminante que Lénine e outros dirigentes revolucionários trataram de denunciar ao longo do tempo, prevenindo sobre o que ele perturbava e enfraquecia, em termos de objectivos e unidade, a luta dos trabalhadores, tão mais perigoso quanto apresentado com uma indumentária aparentemente revolucionária ou de esquerda.

Hoje aí está com novas expressões, outros protagonistas e verbalizações diversas, ainda que enfermos da mesma maleita, esse tão persistente quanto recorrente modo de agir. A abundância que se regista de apelos esvaziados de conteúdo à acção convergente, exortações à unidade da esquerda, disputa quase concursal da métrica dialogante, contrasta com a escassez de clareza de propósitos, de nitidez dos objectivos políticos exigíveis a uma acção consequente, que se quer de esquerda para derrotar a direita, deve inscrever.

Ou, ainda pior, o que dela se pode perscrutar quando dessa dinâmica o que se vê emergir é, não qualquer genuína intenção de somar e agregar, mas sim fazer dela uso para atingir quem se simula querer convidar. O caminho da unidade é uma estrada que exige coerência e norte. A expressão de que “o caminho faz-se caminhando” tem aquele sentido de percurso e persistência para quem o percorre sabendo para onde se vai e onde se quer chegar. Não um caminhar que se faça ao sabor do que mais convém de momento, de disputas tácticas de parcelas de influência, de proclamações de esquerda que não desaguam numa acção consequente para romper com a política de direita, para denunciar os seus protagonistas e responsabilidades, para abrir caminho a uma política alternativa e a uma alternativa política.

Não se junta forças em nome da esquerda para cobrir práticas, opções e política de direita, sejam elas municipal ou nacional, para esconder falta de projecto próprio ou para disfarçar fraquezas e fragilidades. Mais, não se reúne em nome da esquerda quem está ao mesmo tempo do lado da direita, quem partilha com essa mesma direita o que ela assume em matéria de alienação de soberania, de obstáculo à paz, de alinhamento com o que de mais retrógrado acompanha o federalismo europeu.

Coragem e clareza
A unidade e convergência tem de ser construída, no quadro da luta actual, para romper com a política de direita e os projectos reaccionários que à sua sombra florescem com coragem e clareza de propósitos e posicionamentos. Clareza na afirmação dos direitos e salários dos trabalhadores como objectivo prioritário, em confronto com os interesses do capital monopolista, os seus privilégios e instrumentos de exploração. Clareza na defesa e valorização das funções sociais do Estado e dos serviços públicos, contra os ataques a que estão a ser sujeitos. Clareza na rejeição da estratégia de submissão de Portugal ao processo de integração capitalista europeu, combatendo concepções federalistas que esvaziam a soberania dos Estados e subordinam os seus interesses nacionais aos das grandes potências. Clareza na afirmação de um posicionamento que opte pela paz e contra a guerra, privilegie o diálogo e a cooperação entre Estados, recuse a corrida armamentista e impeça que o País seja atirado para aventuras militaristas. Clareza na denúncia do que representa o capitalismo enquanto sistema de exploração, predação e opressão em que se fundam as desigualdades e injustiças.

É para este campo claro e límpido que é preciso atrair todos quantos lutam por um Portugal mais justo e desenvolvido. É esse caminho de convergência sem equívocos que importa ampliar, contando com a contribuição de todos quantos genuinamente partilham desse objectivo. Um caminho que o PCP não percorrerá sozinho, mas que dele não pode prescindir. Acção e convergência tão mais consequente e ampla quanto nelas estiver presente, sem diluições ou abandonos, o projecto e ideais comunistas.

 



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