A cimeira do Alasca
A luta pelo desarmamento e a paz tem de prosseguir
Não é possível conceber esta crónica passando ao lado da cimeira do Alasca entre os presidentes dos EUA e da Rússia mesmo se há muita coisa que se desconhece. No actual contexto de grande tensão internacional, o simples diálogo entre estas duas grandes potências adquire particular importância. Mesmo se precedida de ultimatos e ameaças do lado norte-americano que geraram algum clima de incerteza, a verdade é que esta cimeira, que certamente não foi improvisada e terá versado temas muito para além da crise ucraniana (como o controlo das armas nucleares), acabou num sentido positivo, como foi publicamente reconhecido por ambas as partes.
Entretanto, no campo “atlantista” reina uma manifesta perturbação e inquietação perante a menorização das potências europeias e a evidente fragilização do espantalho da “ameaça russa” que a NATO e a UE têm vindo a utilizar como pretexto para a demencial corrida aos armamentos (os tais 5% do PIB exigidos precisamente pelos EUA) com a chamada “coligação de vontades” empenhada em prosseguir a guerra até ao último ucraniano. No momento em que escrevemos está em marcha uma frenética movimentação político-diplomática que poderá trazer surpresas.
A verdade, porém, é que qualquer passo que vá realmente no sentido da indispensável solução política negociada para a guerra que se trava no Leste da Europa, só pode ser considerado positivamente. O PCP lutou por isso desde o primeiro momento de um conflito que podia e devia ter sido evitado, mas que a cavalgada da NATO (e da UE) para Leste tornou praticamente inevitável. Um conflito que vem de longe, desde o rompimento pelo imperialismo do compromisso de não alargamento da NATO e em que, a partir do golpe de 2014 da Maidan, orquestrado pelos EUA e a UE, ascenderam ao poder em Kiev forças nazi-fascistas e o povo ucraniano se tornou carne para canhão na ofensiva, liderada pelo imperialismo norte-americano, visando a Rússia e tendo a China como inimigo estratégico assumido. Um conflito que, sejam quais forem os desenvolvimentos imediatos da cimeira do Alasca, só poderá ter solução com o fim da corrida aos armamentos e da escalada de confrontação assumida pelas cimeiras da NATO e da UE no passado mês de Junho, e com acordos orientados para a Segurança e Cooperação na Europa, na linha da histórica Conferência de Helsínquia, cujo 50.º aniversário este ano se comemora.
Evidentemente que uma paz justa e duradoura na Europa, passando necessariamente pelo diálogo entre os EUA e a Rússia, exige – como a Conferência de Helsínquia exigiu –a participação de todas as partes interessadas. O que significa que para avançar nessa direcção é necessário que as grandes potências, como a Alemanha, a França, o Reino Unido, a Itália, a Polónia, deixem de lançar achas para a fogueira da guerra, abandonem a pretensão de associar a Ucrânia à NATO e se empenhem num sério processo de negociações orientadas, não para um ilusório “congelamento” do conflito, mas para o desarmamento e a paz. Um caminho que exigirá, sem dúvida, grande pressão popular para vencer os falcões da classe dominante que, não querem prescindir do espantalho da “ameaça externa”, para impor uma economia de guerra e justificar a intensificação da exploração e o ataque a direitos e liberdades fundamentais. A luta pelo desarmamento e a paz na Europa, a par da solidariedade com o martirizado povo palestiniano, tem de prosseguir e intensificar-se.




