Sem espinhas

Anabela Fino

«Eu governo a América e o mundo.» A afirmação é de Trump, aqui citado de cor, em entrevista à revista The Atlantic por ocasião dos primeiros 100 dias do seu governo. Não consta que os vira-latas do imperialismo tenham sequer ganido uma indignação.

O site ucraniano Myrotvorets publica há cerca de uma década uma lista de “inimigos da Ucrânia”, com dados identificadores. A lista é actualizada com a palavra “liquidado”, como no caso do comandante russo Stanislav Rzhitsky, assassinado em 2023, da jornalista Darya Dugina, assassinada em Agosto de 2022, ou do bloguer Vladlen Tatarsky, morto em Abril de 2023, só para citar alguns exemplos. A existência do Myrotvorets, que ironicamente significa “Pacificador”, não escandaliza os sabujos do império. Como toda a gente sabe, não há fascistas nem fascismo na Ucrânia.

A ignomínia absoluta que dá pelo nome de “acordo” entre a União Europeia e os EUA foi servida como um bom negócio, como se a imposição de alocar 5% do PIB de cada Estado-membro a gastos militares fosse uma mais-valia para serviços de saúde a soçobrar, sistemas de ensino a esboroar, habitação a escassear, apoios sociais a desaparecer. Como se a energia pudesse embaratecer por milagre, quando para “penalizar” a Rússia é comprada 4 a 5 vezes mais cara pela UE. Como se a obrigação de comprar aos EUA produtos que mais lhe interessem no valor de 750 mil milhões de dólares ao longo de três anos e investir mais de 600 mil milhões de dólares no que aprouver ao império, fosse um amável brinde. Engasgados, incapazes de esconder o opróbrio, os lacaios deram tratos de polé à cabeça até encontrarem o argumento salvador: podia ser pior. Obrigado paizinho, obrigado chefe, obrigado Trump.

Que em 2024 os EUA tenham gasto quase 900 mil milhões de dólares em armamento, mais do que a China, Rússia, Índia, Arábia Saudita, Reino Unido, Alemanha, França, Coreia do Sul e o Japão juntos, ou que Trump ameace comprar a Gronelândia, anexar o Canal do Panamá, tornar o Canadá o 51.º estado dos EUA ou fazer de Gaza a “Riviera do Médio Oriente” depois de expulsar para nenhures os palestinianos que não tiverem a decência de morrer às mãos de Israel, não importa. O inimigo vem do Leste, ou do Sul, fala russo, mandarim ou farsi, esconde-se nas vendas on-line ou no TikTok, atreve-se a sonhar com novas rotas da seda. É dele que temos de nos precaver, se necessário com as armas nucleares que, para além das do Reino Unido e da França, os EUA têm armazenadas em bases na Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia para nosso eterno descanso.

Depois da cimeira do Alasca, onde a grande atracção parece ter sido o facto de o chanceler russo Sergey Lavrov ter usado uma camisola com a sigla da antiga URSS, resta esperar que o “polígrafo governamental” de Luís Montenegro nos venha explicar que não há fogo que resista a um porta-aviões ou a um míssil balístico.

 



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