Natural do IC20

João Frazão

O turista espanhol parou muito descansadamente na área de serviço da A2, em Palmela, para abastecer de combustível para o resto da viagem ou para reconfortar o estômago (são pormenores que não relevam para a história), e depara-se com uma experiência inusitada. Perante o que vê, entra de rompante no edifício e grita «está naciendo un niño allá fuera!». Efectivamente, assim era. No banco de um automóvel, em pleno parque de estacionamento, entre carros que passam e condutores que abastecem, vinda do Montijo à procura de porto seguro para vir ao mundo, nascia a criança número “já lhe perdemos a conta” em condições de insegurança.

Semanas antes, o primeiro-ministro, confrontado com os sucessivos encerramentos em urgência de obstectrícia na Península de Setúbal, afiançava na Assembleia da República que estava tudo resolvido. Indiferentes aos anúncios de Luís Montenegro, crianças continuam a ver a luz do dia pela primeira vez em ambulâncias, carros particulares, esquadras da PSP e até na rua, onde calha, por manifesta ausência de resposta do SNS, exaurido por anos de desvalorização e desinvestimento em resultado da aplicação determinada da política de direita.

Por estes dias, numa concentração promovida pelas Comissão de Utentes e pelas Organizações Representativas dos Trabalhadores em defesa do Hospital do Barreiro, estivemos junto de uma destas crianças e da sua mãe. Não conseguimos evitar o pensamento de que aquele caso, em que a pequena nasceu numa berma do IC20 quando a mãe andava à procura de uma urgência aberta, correu, felizmente, bem. Com um mês de vida, a bebé, participava serena na luta, contribuindo, mesmo que involuntariamente, para que outras não tenham que correr riscos absolutamente desnecessários. Riscos que colocam, literalmente, a saúde e mesmo a vida destas crianças e das suas mães, e só este ano somam-se já algumas dezenas a nascer em circunstâncias semelhantes, nas mãos da sorte. Riscos que são, directamente, da responsabilidade da desgraçada acção do Governo PSD/CDS que prossegue a acção do anterior governo PS, que não nos cansaremos de denunciar.

Sabemos que nem tudo é antecipável e que pode haver situações em que seja mesmo inevitável atender a uma mulher em trabalho de parto numa ambulância ou mesmo noutras circunstâncias, mas não podemos aceitar que se torne natural daqui a uns anos perguntar a alguém onde nasceu e receber como resposta «sou natural do IC20» ou da «área de serviço de Palmela».

 



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