Caminho para a Paz?

Ângelo Alves

No momento em que escrevemos estas linhas é muito difícil ter uma opinião segura sobre os resultados da intensa movimentação diplomática destes dias, tendo como epicentro a cimeira entre os EUA e a Federação Russa. Mas há algumas questões que são evidentes. A primeira é que na cimeira do Alasca o conflito que se trava no Leste europeu não foi tratado “apenas” como uma guerra entre a Federação Russa e Ucrânia. A abordagem foi bem mais vasta e envolveu questões tão grossas como: a relação, a variados níveis, entre as duas maiores potências nucleares do mundo; a arrumação de forças no plano internacional (e por maioria de razão na Europa) e o papel destas duas potências nas profundas alterações em curso; os interesses económicos e geo-estratégicos que estão em causa no conflito; e ainda a grossa questão da segurança colectiva e garantias de segurança no continente europeu, desde logo o papel belicista da NATO.

Como se disse, quando escrevemos este artigo é impossível prever o resultado de toda esta movimentação diplomática, incluindo as negociações em Washington envolvendo Zelensky, governos das principais potências capitalistas europeias e dirigentes da NATO e da UE. Mas uma coisa estamos em condições de afirmar: o PCP tinha razão quando há vários anos dizia que não seria o alimentar da guerra que resolveria aquele conflito e as suas fundas raízes, e que uma solução política implicava sentar à mesa da diplomacia os vários protagonistas, assim eles o quisessem.

Como ficou demonstrado com o não cumprimento dos Acordos de Minsk, esse caminho nunca foi verdadeiramente aberto. E recordamos como há dois anos o Reino Unido, a União Europeia e os EUA inviabilizaram à partida ténues esforços para tal. Era o tempo da “vitória inevitável” e da insistência na guerra. Hoje, as questões que estão em cima da mesa negocial são exactamente as mesmas de então. Com uma diferença de fundo: o conflito provocou, entretanto, milhares de vítimas, a “velha europa” obstinada com a guerra perdeu peso, capacidade de iniciativa e espaço negocial e tornou o Mundo mais perigoso. Como sempre dissemos este conflito tem raízes muito fundas, e não terminará sem um acordo sobre elas.

Os próximos dias dirão se a Paz pode fazer caminho. Desejamos que sim.

 



Mais artigos de: Opinião

Festa dos valores de Abril

A duas semanas de abrirmos as portas da 49.ª edição da Festa do Avante!, intensifica-se a sua preparação, a mobilização para o seu funcionamento, a participação nas jornadas de trabalho para a sua construção, a sua divulgação para dar a conhecer a riqueza e qualidade do seu programa e os...

A cimeira do Alasca

Não é possível conceber esta crónica passando ao lado da cimeira do Alasca entre os presidentes dos EUA e da Rússia mesmo se há muita coisa que se desconhece. No actual contexto de grande tensão internacional, o simples diálogo entre estas duas grandes potências adquire particular importância. Mesmo se precedida de...

Sem espinhas

«Eu governo a América e o mundo.» A afirmação é de Trump, aqui citado de cor, em entrevista à revista The Atlantic por ocasião dos primeiros 100 dias do seu governo. Não consta que os vira-latas do imperialismo tenham sequer ganido uma indignação. O site ucraniano Myrotvorets publica há cerca de uma década uma lista de...

Natural do IC20

O turista espanhol parou muito descansadamente na área de serviço da A2, em Palmela, para abastecer de combustível para o resto da viagem ou para reconfortar o estômago (são pormenores que não relevam para a história), e depara-se com uma experiência inusitada. Perante o que vê, entra de rompante no edifício e grita...

«Espoliador, imundo, sangrento»

Há uns anticomunistas que gostam de fazer chacota sobre a “superioridade moral dos comunistas”. A maioria não terá sequer lido o texto de Álvaro Cunhal com esse título, e nem saberá que se trata de um texto teórico. Devem imaginar que se trata de um decreto. Álvaro Cunhal cita Lénine: «o que distingue o marxismo do...