É preciso querer

João Frazão

Os órgãos de comunicação social indicam, esta segunda-feira, que as escolas estão a ponderar medidas punitivas para aplicar às crianças que furem a proibição de usar telemóvel nas escolas, agora alargada até ao sexto ano de escolaridade.

Uma ideia (a da proibição do uso de telemóveis nas escolas) que até se compreende pelos seus louváveis objectivos – face à crescente dependência de largas camadas da população (e não apenas as crianças e jovens) de equipamentos com ecrãs e, em particular, os telemóveis, transformados cada vez mais em extensões de cada um de nós – é assim notícia pelos piores motivos.

Podiam falar dela anunciando que estão a preparar os recintos escolares para as crianças terem espaços seguros e confortáveis para brincar.

Podiam informar pais e encarregados de educação que, perante o previsível impacto nos intervalos, em que se voltarão a ouvir conversas e brincadeiras, as correrias retomarão o seu lugar e as bolas passarão a ocupar, de novo, um lugar cimeiro nas coisas a trazer para a escola, o Ministério da Educação está a reforçar o quadro dos trabalhadores não docentes para acompanhar essas actividades.

Podiam estar a preparar guiões de actividades a desenvolver com a miudagem que possa estar mais “perra” ou a antecipar dificuldades de socialização deste ou daquele, que vai ser preciso ultrapassar.

Mas para isso, o Governo tinha de querer.

Como o Governo não quer valorizar a escola, a notícia é que estão a estudar sanções para crianças de 10, 11 ou 12 anos, de aplicação, aliás, duvidosa, particularmente quando, em virtude de decisões tomadas anteriormente, muitos estudantes frequentam mega-escolas com vários ciclos do ensino básico, não se aplicando, a todos, as mesmas regras.

As soluções para uma escola que eduque, que puxe por aquilo que cada um tem de melhor, que seja uma alavanca para enfrentar desigualdades, desequilíbrios e injustiças, não está nem em sanções, nem na imposição de um quadro de valores retrógrados e obscurantistas, como está evidente nas alterações em discussão pública da disciplina de cidadania.

A educação pública gratuita e de qualidade que queremos, para todos, faz-se com promoção da participação dos estudantes e da democracia. Mas para isso, para lá do show off mediático, é preciso querer!

 



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