Hua Lo

Quem nunca ouviu falar da terrível prisão conhecida por Hanói Hilton onde o Vietcong mantinha prisioneiros os pilotos norte-americanos abatidos nos céus da cidade? Quem não tem incorporado, nalguma parte do cérebro, as imagens de filmes de guerra made in USA com bravos pilotos americanos a serem selvaticamente torturados por maldosos comunistas com os olhos em bico? Todos? Quase todos, seguramente.

E, no entanto, a prisão não era vietnamita nem comunista. Era francesa, foi desenhada e construída pelo imperialismo francês e foi francesa até este ser derrotado no Vietname. Durante 55 anos, de 1899 a 1954, foi um instrumento da dominação colonial: ali estiveram presos milhares de vietnamitas, patriotas e comunistas; ali foram executados centenas deles. A prisão, francesa, ocidental, capitalista, impunha um regime inumano, com os presos agrilhotados, sujeitos à tortura, à fome, às doenças. A mesma guilhotina célebre por ter sido usada para aterrorizar a nobreza francesa era aqui, com uma naturalidade absoluta, usada para aterrorizar a população vietnamita. A prisão tinha uma ala feminina, ali foi assassinada a companheira de Giap, por exemplo. Quem conhece? Quantos filmes, séries ou artigos de jornal vos informaram?

Em 1964 a prisão vai acolher um tipo de prisioneiros especial. Assassinos, daqueles que bombardeiam cidades civis sem resistir a uma ordem ilegal, e quando presos sempre invocam em sua defesa o facto de estarem a cumprir ordens. Pouco mais de 600 homens e uma mulher que ali estiveram presos, e que de acordo com o seu próprio testemunho, dado já depois de se encontrarem de regresso a casa, sempre foram tratados com o máximo respeito possível. O que em nada alterou o guião escrito pela propaganda ocidental, onde as vítimas continuam a ser os algozes.

Os comunistas vietnamitas, na sequência dos Acordos de 1973 e da vitória de 1975, acabariam por encerrar a prisão, da mesma forma que foram os comunistas (com o apoio de muitos outros democratas e patriotas) que encerraram milhares de campos de concentração pela Europa fora e centenas de prisões políticas (algumas em Portugal). Tal como já teriam encerrado o campo de concentração de Guantanamo se para tal reunissem a força necessária, nomeadamente o apoio político internacional suficiente.

Hua Lo é, assim, mais uma prisão política transformada em Museu, porque a história é para ser conhecida. E que cheia estava – de crianças, jovens casais, trabalhadores – nos 50 anos da vitória que o mundo celebrou este 30 de Abril, como bem recordou o Avante! na semana passada.



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