Coragem

Gustavo Carneiro

Passou por Portugal, em Julho do ano passado, uma das embarcações da Flotilha da Liberdade, coligação internacional que procura romper o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza (que, ao contrário do que muitas vezes é sugerido, não tem alguns meses, mas quase duas décadas). O Handala, assim se chama o navio, integrava a campanha “Para as Crianças de Gaza”, uma das duas protagonizadas pela Flotilha.

A outra, de emergência humanitária, pretende fazer chegar à população da Faixa de Gaza muito daquilo que ela mais necessita: alimentos, medicamentos, equipamento hospitalar (há toneladas de material à espera de embarcar). Nesta campanha estão envolvidas três embarcações: um cargueiro e outros dois navios, mais pequenos, para transportar os activistas da coligação, de várias nacionalidades.

Um desses barcos é o Conscience (Consciência), que foi atacado há dias por dois drones, quando navegava em águas internacionais, ao largo de Malta. Os disparos não reivindicados atingiram a proa da embarcação, onde estavam situados os geradores de emergência e os sistemas de suporte de vida, provocando danos estruturais no casco, cortes de comunicações, fugas de combustível e um incêndio que demorou mais de duas horas a extinguir. Quatro pessoas ficaram feridas.

Em comunicado de dia 4, a Flotilha revela pormenores dos acontecimentos: relata que, enquanto combatiam o incêndio, tripulantes e activistas viram mais drones a pairar, temendo novos ataques; cita a CNN para referir um Hércules C-130 da Força Aérea israelita que voou em direcção a Malta horas antes dos disparos; recorda o rebocador não identificado que se acercou do Conscience pouco depois dos ataques, mas que não prestou qualquer assistência durante uma hora, apesar dos insistentes pedidos de ajuda: só passado esse tempo, o rebocador activou a mangueira de água na direcção do incêndio, enquanto apelava à tripulação do navio humanitário para que o abandonasse. A Flotilha explica ainda por que razão ninguém arredou pé do Conscience naquele momento: isso tornaria o navio, «juntamente com a ajuda humanitária a bordo, vulnerável à apreensão, pondo ainda mais em risco a nossa capacidade de continuar o esforço de navegar e quebrar o cerco a Gaza».

A determinação destes activistas, e de tantos outros que por todo o mundo enfrentam prisões, deportações, cancelamentos e difamações, junta-se à coragem demonstrada todos os dias pelo povo palestiniano, que nas mais terríveis condições insiste em permanecer na sua terra e que faz da sobrevivência diária mais um testemunho da sua inequebrantável resistência. Também por isso a Palestina é invencível.



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